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O KITSCH, A EXISTÊNCIA E O ROMANCE

 

Emma Bovary desperta paixões violentas, a favor e contra. Com essas palavras iniciei a coluna intitulada A grande adúltera. Ocorre que não apenas a personagem Gustave Flaubert, mas o próprio romance cobra posicionamentos. Não se lê Madame Bovary com indiferença. Em coluna intitulada Milan Kundera, registrei que uma das grandes sacadas do romancista tcheco foi explorar a dimensão existencial do kitsch [1]. Juntando uma coisa com a outra, é possível fazer uma leitura de algumas interpretações do romance de Flaubert usando a sacada de Kundera para destacar a potência da arte do romance.

 

As interpretações kitsch de Madame Bovary podem ser sintetizadas nas palavras do crítico literário Sainte-Beuve e da romancista George Sand [2]. Sainte-Beuve: “A crítica que faço a seu livro é que o bem está muito ausente”, o crítico questiona por que não há “um só personagem que tenha a natureza de consolar, de descansar o leitor com um bom espetáculo”? George Sand registrou que Flaubert escondia o “sentimento” que tinha pelos personagens e transmitia “desolação” aos leitores enquanto ela preferia “consolá-los”: “a arte não é só crítica e sátira”. Flaubert respondeu para Sand que nunca pretendeu fazer nem crítica nem sátira, apenas se esforçava para “adentrar a alma das coisas” [3].

 

Há nas palavras do crítico e da romancista uma dimensão moralizante, mas há, também, o kitsch. É que o kitsch se caracteriza exatamente por “consolar” e “descansar [...] com um bom espetáculo” [4]: “é a necessidade de se olhar no espelho da mentira embelezante e ali se reconhecer com comovida satisfação” [5]. No reino do kitsch o bem deve estar ostensivamente presente. Se é assim, o kitsch é uma necessidade existencial dos consumidores de arte, não é apenas um rebaixamento estético.  Ou dito de outra forma, trata-se de um rebaixamento estético demandado pelos consumidores de arte. O fato é que: pelo desconsolo que provoca e pela ausência do bem, não há espaço para Madame Bovary no reino do kitsch.

 

Após publicar Madame Bovary e ser processado por ofensa à moral e aos bons costumes, Flaubert escreveu uma carta a um primo em que registrou: “Eu te confessarei, de resto, que tudo isso me é perfeitamente indiferente. A moral da Arte consiste em sua própria beleza, e eu estimo acima de tudo o estilo, e em seguida o Verdadeiro” [6]. Tivesse caído nas mãos do Ministério Público em tempo, a confissão de Flaubert certamente seria usada na peça de acusação. A “moral da Arte” teria levado o romancista e violar a moral e os bons costumes da sociedade francesa. Mas se o romance precisa “adentrar a alma das coisas”, os choques são inevitáveis, porque de acordo com a moral e os bons costumes há coisas que não devem ser investigadas nem muito menos publicadas.

 

Kundera notou que, para se sustentar, o kitsch exclui “toda manifestação de individualismo (porque toda discordância é uma cusparada no rosto da fraternidade sorridente), todo ceticismo (porque quem começa duvidando do detalhe mais ínfimo acaba duvidando da própria vida), a ironia (porque no reino do kitsch tudo tem que ser levado a sério)” [7]. Kundera novamente: “É preciso evidentemente que os sentimentos suscitados pelo kitsch possam ser compartilhados pelo maior número possível de pessoas. Por isso, o kitsch não se interessa pelo insólito; ele apela para imagens-chave profundamente ancoradas na memória dos homens: a filha ingrata, o pai abandonado, os garotos correndo num gramado, a pátria traída, a lembrança do primeiro amor.” [8] Por tudo isso que um romance como Madame Bovary não cabe no reino do kitsch. O bem está ausente, o desconsolo é total e, pior ainda, há uma adúltera no primeiro plano. Curioso notar que, Flaubert foi inocentado da acusação por ofensa à moral e aos bons costumes, mas não porque “adentrar a alma das coisas” é fundamental para o romancista e não porque “a moral da Arte consiste em sua própria beleza”. Tese da promotoria: Madame Bovary é um livro imoral porque Emma não se arrepende. Tese da defesa: Madame Bovary é um livro moral porque o fim atroz da adúltera desautorizaria o adultério. Prevaleceu a segunda tese. Mas as duas condenam a arte do romance. Nem acusação nem defesa escapam do kitsch. A adúltera deve se arrepender e pagar pelo que fez. Ponto final.

 

Aqui surge uma questão interessante:  se o kitsch está em todos os cantos, é possível escapar dele? Recorro mais uma vez a Kundera. O romancista divide os homens em dois grupos: os que em alguma medida desconfiam e os que aderem à vida sem ressalvas. Os últimos se baseiam, conscientemente ou não, no ensinamento presente no primeiro capítulo do Gênese: o mundo é o que devia ser, as pessoas são boas e devem procriar. Se o mundo é o que devia ser, o bem é onipresente. Se as pessoas são boas e devem procriar, não há espaço para uma adúltera como Emma Bovary: que achava a própria filha feia e que arruinou a família. Quem adere à vida sem reservas firma o que Kundera definiu como “acordo categórico com o ser”, que é “a fonte do kitsch”. Mas é possível viver em desacordo categórico com o ser? A resposta é não: “Nenhum de nós é sobre-humano a ponto de poder escapar completamente ao Kitsch. Não importa o desprezo que nos inspire, o kitsch faz parte da condição humana.” [9] No romance A insustentável leveza do ser a pintora Sabina trava combate contra o kitsch, mas sem vitória definitiva. Quando assistia filmes sentimentais, os olhos dela se enchiam de lágrimas sempre que a filha ingrata se reconciliava com o pai abandonado. O kitsch da pintora tinha a ver com tudo que ela não teve: um lar sossegado, doce e harmonioso, com uma mãe cheia de amor e um pai cheio de sabedoria.

 

Mas se não há como escapar totalmente do kitsch, é possível confrontá-lo. Kundera outra vez [10]: o verdadeiro adversário do kitsch é o homem que interroga, “a pergunta é como faca que rasga a cortina do cenário para que se possa ver o que está atrás.” Acrescento: outro adversário do kitsch, ainda que não seja imune a ele, é o romance. A arte do romance – entendida como um “adentrar a alma das coisas” – é uma manifestação de individualismo (não raro uma cusparada no rosto do senso comum), mas também de ceticismo (se o romancista recria o mundo é porque desconfia das coisas como estão e são) e ironia (o romancista leva a sério apenas a própria escrita). A arte do romance passa, sobretudo, por interrogar e recriar. Pode, exatamente por isso, confrontar o kitsch, que é a “mentira embelezante” mobilizada para descansar e consolar quem teme e prefere evitar “a alma das coisas”.

 

Notas

[1] Na sexta parte do livro A arte do romance, intitulada Sessenta e três palavras, Milan Kundera define o kitsch (os grifos são meus):

 

“Quando eu escrevia A insustentável leveza do ser, fiquei um pouco inquieto por ter feito da palavra kitsch uma das palavras-pilar do romance. Na verdade, ainda recentemente, essa palavra era quase desconhecida na França, ou então conhecida em um sentido muito empobrecido. Na versão francesa do célebre ensaio de Hermann Broch, a palavra ‘kitsch’ é traduzida por ‘arte de carregação’. Um contrassenso, pois Broch demonstra que o kitsch é coisa diferente de uma simples obra de mau gosto. Existe a atitude kitsch. O comportamento kitsch. A necessidade kitsch do homem-kitsch (Kitschmensch): é a necessidade de se olhar no espelho da mentira embelezante e ali se reconhecer com comovida satisfação. Para Broch, o kitsch está historicamente ligado ao romantismo sentimental do século XIX. Visto que na Alemanha e na Europa Central do século XIX era muito mais romântico (e muito menos realista) que em outra parte, foi lá que a palavra kitsch nasceu, e que ainda é usada corretamente. Em Praga, vimos no kitsch o inimigo principal da arte. Não na França. Aqui, à arte verdadeira se opõe o divertimento. À grande arte, a arte simples, menor. Mas, quanto a mim, nunca me irritei com os romances policiais de Agatha Christie! Em compensação, Tchaikovski, Rachmaninoff, Horowitz no piano, os grandes filmes hollywoodianos, Kramer versus Kramer, Doutor Jivago (oh, pobre Pasternak!), é o que profunda e sinceramente detesto. E fico cada vez mais irritado pelo espírito do kitsch presente nas obras cuja forma se pretende modernista. (Acrescento: a aversão que Nietzsche experimentou pelas ‘palavras bonitas’ e pelos ‘casacos com ornamentos’ de Victor Hugo foi a repugnância pelo kitsch em seus prenúncios.) 

 

[2] Os trechos do crítico, da romancista e de Flaubert foram citados no ensaio de Milan Kundera intitulado Adentrar a alma das coisas, publicado no livro A cortina.

 

[3] Ensaio citado na nota anterior.

 

[4] Ensaio citado na nota 2.

 

[5] O trecho entre aspas está no texto citado na nota 1.

 

[6] A carta de Flaubert ao primo foi citada no livro A orgia perpétua – Flaubert e Madame Bovary, de Mario Vargas Llosa

 

[7] O trecho está sexta parte do romance A insustentável leveza do ser, intitulada A Grande Marcha.

 

[8] Idem nota 7.

 

[9] Os trechos entre aspas estão na sexta parte do romance A insustentável leveza do ser, intitulada A Grande Marcha.

 

[10] Idem nota 7.


Publicado originalmente no Passa Palavra

 

A GRANDE ADÚLTERA

 

Emma Bovary provoca paixões violentas, a favor e contra. A favor: o escritor Mario Vargas Llosa [1] e mais alguns. Contra: o Ministério Público Francês e o promotor Ernest Pinard, que levaram Gustave Flaubert para o banco dos réus por ofensa à moral e aos bons costumes. Componho o primeiro grupo. Foi paixão à primeira leitura. Talvez por saber, desde o início, que o destino dela seria trágico, e por constatar, a cada página, que ela não recuaria. Vale pontuar que Emma Bovary era grande leitora de romances, também ela sabia o destino reservado às adúlteras. Enfim. Sempre que posso, retorno ao romance de Flaubert. Costumo ler, também, o que encontro sobre a Madame.

 

Num sebo, procurando livros na seção de crítica literária, encontrei Os ovários de Mme. Bovary, de David Barash e Nanelle Barash [2]. Comprei, li e recomendo. São dez ensaios que analisam obras literárias com instrumental darwiniano. Os autores passam por Jane Austen, Shakespeare, Faulkner, Dostoievski, Joyce, Philip Roth, Flaubert e outros. Os ovários de Mme Bovary... Uma sacada provocativa, explicita a ideia que perpassa todos os ensaios: a biologia tem muito a dizer sobre o comportamento humano, seria “uma chave [...] que abre mais portas, dá acesso a mais lugares e lança mais luz do que qualquer de suas alternativas menos versáteis”. Os autores não se arriscam a ponto de afirmar que a biologia explica totalmente a literatura, sabem que os seres humanos são animais culturais, com imaginação e intelecto. Mas lembram, por outro lado, que não é por ter imaginação e intelecto que os homens deixam de ser animais. Se é assim, seria possível “encontrar raízes na biologia, o leito comum que todos os seres humanos compartilham com focas, alces, gorilas e grande parte do mundo animal”.

 

Por meio da Madame Bovary, de Flaubert, David Barash e Nanelle Barash discutem “a biologia do adultério”. Afirmam, por exemplo, que pesquisadores analisaram diversas espécies e perceberam que, em alguns casos, 70% das crias nascem de traições, ou seja, de relações extraconjugais. Emma Bovary, por exemplo, teria ouvido um sussurro darwiniano subliminar que lhe provocou comichão nos ovários, empurrando-a para a cama com Rodolphe e Léon. Os autores vão mais longe. Argumentam que a tendência à infidelidade da Madame Bovary aumentou quando o marido sofreu um revés profissional. No que ela se aproximaria das fêmeas de chapim-real, que geralmente são fiéis, mas às vezes traem os parceiros, especialmente quando eles fracassam socialmente. De acordo com os autores, a ausência de inclinação para a maternidade também pode ter aumentado a tendência à infidelidade de Emma Bovary, que pouco se preocupava com a filha.

 

É interessante reler a personagem de Flaubert a partir dos ovários. Mas, para mim, que sou do time dos apaixonados por ela, a interpretação biologizante pareceu insuficiente e até desrespeitosa com a adúltera, como se a rebaixasse. Onde David Barash e Nanelle Barash enxergam a “biologia do adultério”, vejo “a poesia do adultério”. Curiosamente, o promotor que acusou Flaubert concorda comigo. A expressão “poesia do adultério” é dele, que, além disso, definiu o romance como “uma pintura admirável sob o ponto de vista do talento, mas uma pintura execrável do ponto de vista moral.” [3] Detalhe. Vargas Llosa lembra que o promotor que acusou Flaubert por ofensa à moral e aos bons costumes escrevia, secretamente, versos pornográficos...

 

Emma Bovary era uma leitora incansável: “mesmo à mesa levava um livro e virava as páginas enquanto Charles comia e falava-lhe” [4]. Flaubert informa que, após a primeira traição, ela lembrou-se das heroínas dos livros que lera, aquela legião lírica de mulheres adúlteras tomou-lhe a memória de assalto, como irmãs que a seduziam. Realizou, então, o longo devaneio de juventude e se tornou uma mulher apaixonada. Além disso e ao mesmo tempo, sentiu-se vingada. Sofrera muito. Mas, finalmente, triunfava. O amor, por tanto tempo reprimido, “jorrava alegremente em alegre efervescência.” [5] Se é assim, por mais provocativa que seja a ideia, não dá para limitar Emma Bovary aos ovários.

 

Mais interessante do que explicar as paixões de Emma Bovary é pensar por que ela continua apaixonante um século e meio depois da publicação do romance. Como explicar o amor pela personagem de Flaubert? O que dizer da paixão dos leitores, como eu, por uma adúltera sem ovários, posto que é uma personagem? Será que, inconscientemente, gostaríamos de fazer amor com ela? Transmitir nosso material genético para a posteridade junto com ela?  Se fosse isso, ponto para o romancista, que teria irritado o Ministério Público, iludido a seleção natural e despertado a atração sexual dos leitores por uma personagem. Mas não é por aí. O instrumental da biologia é insuficiente para explicar por que amamos Emma Bovary. Ela apaixona devido à escrita de Flaubert [6], que recorta e reorganiza a realidade, reposicionando e revalorizando objetos (leques, buques, frascos de perfume) e partes do corpo humano (mãos, unhas, pulsos). O romancista humaniza as coisas e coisifica as pessoas, exceto a personagem principal, que se destaca. Mas não é só isso. Emma Bovary apaixona, sobretudo, por suas apologias e rechaços: sim para os livros, sim para os sonhos, sim para a imaginação, sim para o amor; não à filha, não ao marido, não ao casamento, não à monogamia e, seguindo por esse caminho, não ao patriarcado. Ela afirma e recusa ao mesmo tempo e com a mesma radicalidade. Morreu com um “riso atroz, frenético, desesperado.” [7] Acrescento: desespero libertador dos que não esperam absolutamente nada.

 

Emma foi uma leitora que teve contato, pelos romances, com uma legião lírica de adúlteras. Ela certamente conhecia o destino reservado às senhoras que amam fora do casamento. Que seja difícil, quase impossível, amar dentro do casamento, não alivia a condenação dela e das demais. O destino de Emma Bovary é parecido com o de Ana Karenina e tantas que as precederam. Mas ela não se intimidou. Vargas Llosa [8]: “Emma quer gozar, não se conforma em reprimir em si essa profunda exigência sensual que Charles não consegue satisfazer porque nem sabe que existe.” Se é assim, a personagem de Flaubert pode ser considerada uma espécie de feminista avant la lettre. Além disso, ela foi liquidada por um agiota e pelo patriarcado, mas não costuma contar com a simpatia nem dos setores progressistas. Provavelmente porque sua recusa é demasiadamente radical: rebelou-se contra a maternidade (“como essa criança é feia” – murmurou ao lado da filha, que dormia), arruinou as finanças familiares, amou fora do casamento (“sem remorsos, sem inquietude, sem desassossego”) [9].

 

Mas a leitora incansável devia morrer porque ousou ser ousada. Seus amantes seguiram suas vidas normalmente. A poligamia lhes era permitida. Eles dormem enquanto o corpo dela é velado: “Rodolphe, que para distrair-se andara o dia todo, dormia tranquilamente em seu castelo; e León, lá em Rouen dormia também.” [10] Ela se despede da vida. Eles não se despedem dela.

 

A palavra adultério vem do latim adulterĭum, no sentido de traição, mas também como mudança e alteração. Na terceira parte do romance A insustentável leveza do ser, intitulada As palavras incompreendidas, Milan Kundera [11] discute a traição a partir da pintora Sabina, que é legitima integrante da legião lírica de mulheres adúlteras, uma espécie Madame Bovary da Boêmia: “A traição. Desde nossa infância, papai e o professor nos repetem que é a coisa mais abominável que se possa conceber. Mas o que é trair? Trair é sair da ordem. Trair é sair da ordem e partir para o desconhecido. Sabina não conhece nada mais belo do que partir para o desconhecido.” Contra Emma Bovary joga a moral cristã a ensinar que a carne não vale, que sexo é pecado, que a mulher deve ser submissa, que é preciso se arrepender. Ela trava um combate desigual contra a culpa, a submissão, o arrependimento e a repressão sexual. Que Emma tenha traído o marido porque sentiu comichão nos ovários é apenas uma parte da história. É preciso lembrar que ela foi uma leitora que disse não, que não cabia numa sociedade provinciana ao lado de um homem medíocre. Por tudo isso, vejo Emma Bovary para além dos ovários: é a grande adúltera no melhor sentido da palavra – como mudança e alteração, como quem sai da ordem e parte para o desconhecido. Evoé, Madame Bovary! 

 

Notas

[1] Mario Vargas Llosa. A orgia perpétua – Flaubert e Madame Bovary. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.

[2] David P. Barash e Nanelle R. Barash. Os ovários de Mme. Bovary – um olhar darwiniano sobre literatura. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2006.

[3] As palavras do promotor que acusou Flaubert foram citadas por Vargas Llosa, na edição referenciada na nota 1.

[4] Gustave Flaubert. Madame Bovary. Porto Alegre: L&PM, 2016.

[5] O trecho entre aspas está no romance de Flaubert, na edição referenciada na nota anterior.

[6] Emma Bovary: a condenação perpétua

[7] O trecho está no romance de Flaubert, na edição referenciada na nota 4.

[8] O trecho está no livro referenciado na nota 1.

[9] Os trechos entre aspas estão no romance de Flaubert, na edição referenciada na nota 4.

[10] O trecho entre aspas está no romance de Flaubert, na edição referenciada na nota 4.

[11] Milan Kundera. A insustentável leveza do ser. São Paulo: Companhia das letras, 2008. 


Publicado originalmente no Passa Palavra

 SANTO

 

Um homem, afinal de contas, não devia conhecer tudo, sobressair-se em múltiplas atividades, iniciar a mulher nas energias da paixão, nos refinamentos da vida, em todos os mistérios? Mas aquele ali não lhe ensinava nada, não sabia nada, não desejava nada. Achava que era feliz; e ela o detestava por aquela calma tão assentada, por aquele peso sereno, pela própria alegria que ela lhe dava.

(Gustave Flaubert - Madame Bovary)

 

Estava no túnel de entrada para o segundo tempo da vida. Havia se acostumado com o substantivo masculino senhor. Em algum momento, talvez no terceiro quarto do primeiro tempo da vida passou, precocemente, a ser chamado de senhor. Não se incomodava. Era casado, tinha duas filhas e usava roupas discretas: sapatos e cintos da mesma cor, camisas por dentro da calça, blusas de lã com gola v. Mas, como registrou um escritor um pouco anterior ao nosso tempo: um dia surge o “por quê e tudo começa a entrar numa lassidão tingida de assombro.”

 

Era bancário. Fazia pagamentos e transferências. Os valores que movimentava na agência faltavam-lhe no bolso. Geralmente ficava sem dinheiro no meio do mês. Usava o cheque especial com a moderação permitida pela correlação de forças familiares. Na economia doméstica, ele era neoliberal, enquanto a mulher e as filhas eram neodesenvolvimentistas. Ele defendia o corte de gastos e o equilíbrio das contas. Elas exigiam a ampliação dos investimentos e das despesas sociais. Aquele lar era um bom exemplo de que as economias familiares não podem ser comparadas com as economias nacionais.

 

De manhã cedinho o cão o levava para passear. Às seis em ponto o animal corria e latia no quintal. Davam voltas no quarteirão até o cachorro se aliviar. Recolhia as fezes do animal e as depositava no cesto de lixo, devidamente embrulhadas. Daí seguiam para a padaria. Amarrava o cachorro e comprava pães para o café da manhã. Depois deixava as filhas no colégio e seguia para o banco. Às vezes fazia horas extras. Nesses dias ajudava a preparar o jantar, lavava a louça e dormia. Quando chegava no horário normal, aproveitava para assistir TV com a família. Não gostava de novelas, mas elas o faziam relaxar e esquecer o dia a dia, além de proporcionarem algum contato com a mulher e as filhas, que exigiam silêncio quando ele puxava assunto. Às vezes se repreendia por falar sempre na hora errada. Às vezes se retirava e ia para o quintal brincar com o cachorro, se acalmava e voltava. Era o melhor amigo do cão. Às vezes tentava colocar o animal dentro de casa, mas era repreendido pela esposa. Se pudesse, pelo menos, acompanhar a novela junto com o cão... Às vezes tinha vontade de assistir telejornais e programas esportivos, mas declinava para não contrariar a esposa e as filhas. Nem cogitava a possibilidade de assistir telejornais e programas esportivos no quarto, longe da mulher e das meninas.

 

Duas vezes por semana buscava as filhas no balé. Não se incomodava com o trânsito parado. Mas, nas apresentações semestrais, no ginásio do clube, esforçava-se para não cochilar, e aplaudia coreografias que não entendia. Pensava ser a desvantagem de ter filhas. Assistir um filho jogando futebol talvez fosse mais interessante – cogitava sem muita convicção. Queria tentar mais uma gravidez, quem sabe viesse um menino, mas a esposa não aceitava.

 

Aos sábados fazia pequenas manutenções na casa. Sempre sob supervisão crítica da esposa, que reclamava das limitações dele como reparador de interiores e exteriores. Ela dizia que qualquer homem da família dela faria o mesmo trabalho melhor e mais rápido. Ele trocava o telhado, pintava a fachada, limpava a caixa d’água, consertava o portão automático. À noite saía com a família. Deixava a mulher e as filhas escolherem o restaurante, em geral elas escolhiam algum shopping da cidade, para jantar e ir ao cinema. Ele não se incomodava com as filas e a lotação, nem se irritava com a dificuldade para estacionar. Elas desciam e faziam compras enquanto ele esperava aparecer alguma vaga no estacionamento, assim a mulher e as filhas aproveitavam melhor os passeios. Além de fazer compras, elas gostavam de filmes de ação. Ele não tinha preferências. Quando enjoava dos filmes que elas escolhiam, se escondia atrás dos óculos 3D e dormia. As filhas diziam que o pai vivia cansado, que só dormia. Ele concordava e ria: era verdade!

 

Aos domingos jogava futebol. Mais importante era papear com amigos depois da pelada. Mas tinha pouco tempo. Almoçava na casa da sogra. Era sempre o primeiro a deixar o clube. Saía antes de terminarem as primeiras cervejas. Porque começava a sentir dores nos joelhos e tinha que almoçar na sogra, pensou em largar o futebol. Apesar de não atrasar mais que quinze minutos, quando chegava na casa da sogra era lembrado de que o almoço já estava pronto, sendo interpelado por olhares inquisidores. Elas perguntavam por que ele continuava correndo atrás de bola, se já não tinha mais idade.

 

Nos almoços dominicais, depois do macarrão vinha um assado, frango ou carne de boi, mais raramente costelinhas de porco; depois do macarrão e do assado vinha a sobremesa, geralmente pudim de leite condensado, porque as meninas gostavam; depois da sobremesa vinha o café; depois do café vinha o dominó, que jogavam até anoitecer, deixava a sogra e as filhas ganharem. Alegrava-se com a alegria delas.

 

Nos aniversários era sempre ele que puxava a parte do “e pra fulana nada”, ao que as demais respondiam “tudo”, ele perguntava “então como é que é?”, e elas retrucavam com “é pique, é pique, é pique, é pique, é pique.” É graças a homens como ele que, em nenhuma mesa e em nenhum salão, nunca o “parabéns pra você” parou no meio por falta de alguém que emende o “e pra fulano nada?”.  Estranho acordo ontológico, mesmo sem nenhum contato prévio e sem nenhum treinamento, sempre haverá alguém para dizer “e pra fulano nada”. O que faz um homem saber que chegou a sua vez de ser protagonista no “parabéns pra você”? Seja como for, o fato é que tais homens são as vigas de sustentação das famílias.

 

Quando as filhas brigavam porque uma queria ir ao shopping e a outra à pizzaria, ou porque uma não queria que a outra usasse suas roupas, ou porque uma acusava a outra de bagunçar o quarto, ou porque uma dizia que a outra tinha comido todo pudim de leite condensado: ele intervinha. Explicava calmamente que elas eram irmãs e precisavam se entender, que uma tinha razão, mas a outra também, que o papai amava as duas igualmente. Não raro acontecia das irmãs, com apoio da mãe, se juntarem contra ele. As brigas nunca começavam com ele, mas costumavam se virar contra ele: como se o pai fosse culpado pelos desentendimentos e por todos os problemas da família e do mundo. Era como culpar um pernilongo por uma hemorragia. Ele desconhecia a comparação, mas certamente estaria disposto a aceitar que um pernilongo pode causar uma hemorragia, especialmente se fosse para acalmar os ânimos familiares. Ele era um pernilongo que nem picava nem fazia barulho, mas, às vezes, mulher e filhas tinham vontade de esmagá-lo com as mãos.

 

Vendeu um dos carros para bancar a lipoaspiração e o silicone da esposa. Ficou sem o veículo que usava para se locomover, mas a alegria da mulher compensou com vantagem o esforço para enfrentar o transporte público, mesmo nas épocas de chuva. O que era um sapato molhado durante todo o dia perto da alegria da esposa? O que eram duas horas chacoalhando nos coletivos perto da felicidade dela? Podia ouvir música pelo fone. Usava o tempo disponível para pensar na família e planejar o futuro.

 

Com a cintura fina, as pernas torneadas, os peitos duros e duas horas diárias de academia, a esposa passou a implicar com a barriga dele. Havia tantos homens que estavam melhor que ele, uns 60 só no clube – pelas contas dela. Um homem que não se cuida não merece uma mulher bem cuidada – dizia a esposa. Ele concordava e prometia se matricular na academia, ou, pelo menos, comprar uma bicicleta ergométrica e um banco de supino. Faltava-lhe tempo e energia. Mas sabia que ela tinha razão. Desconfiava, inclusive, que no clube havia mais de 60 homens que estavam melhor que ele, o número era arbitrário, bondade e complacência da esposa. Sentia ciúmes dos homens que estavam melhor que ele, especialmente aqueles 60 ou mais. Sonhar com o barulho de pernilongo pode significar que há pernilongos no quarto. Mas ele tinha certeza de que a mulher nem reparava nem se interessava por outros homens, se falava deles era para incentivá-lo a se cuidar. Estava realmente barrigudo e fora de forma. Ela tinha razão. Estava corretíssima.

 

É verdade que reparava em outras mulheres. Nutria algum interesse por dormir com outra mulher. Era o invariável desejo de variar. Inclusive porque a esposa foi a primeira e a única namorada dele. Mas o receio de magoar a mulher e as filhas o continha. O risco não compensava o investimento – pensava aquele trabalhador da área financeira. Sou casado, minha vida é boa, não posso arriscar – dizia para si próprio. Foi legítimo herdeiro da tradição inaugurada por Charles Bovary, apesar de não conhecer literatura nem ter tempo para livros. Enfim. O bovarismo – entendido como alteração do senso de realidade – foi pensado a partir de Emma Bovary, mas é preciso estudar o fenômeno também a partir de Charles Bovary.

 

Certa vez precisou renovar documentos e certidões. Pediu liberação do trabalho no período da manhã e agendou a visita ao posto de atendimento. Passeou com cão. Comprou os pães. Foi a pé renovar os documentos e as certidões. Era a primeira quebra de rotina em muitos anos. Constatou que as ruas em que crescera estavam lotadas de edifícios e automóveis. No posto de atendimento foi solicitado a confirmar as informações pessoais anotadas pela atendente. Data de nascimento: correto. Pai: correto. Mãe: correto. Estado civil: correto. Cor dos olhos: correto. Cabelos... Grisalhos? Foi quando surgiu-lhe o por quê. Sentiu, espantado, a passagem do tempo, como se tivesse ficado grisalho naquela manhã. Por que o tempo passa tão rápido? Convivia com o substantivo senhor, mas era a primeira vez que se deparava com o adjetivo grisalho. Tinha algumas dezenas de cabelos brancos, era fato, mas nunca havia sido chamado de grisalho.  


Publicado originalmente no Passa Palavra



DOM CATURRO
(para Anna Capitolina Bovary)

Se o amor é o mar,
eu sou o náufrago.

Por isso
me parto,
me perco,
me afogo,
me mutilo,
me quebro,
me estropio.

Se o amor é o mar,
eu sou o náufrago.

Por isso
me jogo,
me atiro,
me arremesso,
me desembesto
na água salgada:
voluptuosamente!




BARTLEBY: INSEGURANÇA, ADOECIMENTO E MORTE DE UM TRABALHADOR

Prelúdio

Bartleby, o escrevente, é um conto publicado por Herman Melville em 1853. Oitenta páginas na edição de bolso. Mas, se o texto é curto, as interpretações são infinitas e possíveis, o que demonstra a força do conto. Bartleby seria "o novo Cristo ou o irmão de todos nós"1. Bartleby é "a figura extrema do nada de onde procede toda a criação e, ao mesmo tempo, a mais implacável reivindicação deste nada como pura, absoluta potencia.”2 Bartleby seria um precursor do movimento Occupy Wall Street3. Bartleby seria um anúncio do colapso da escrita do próprio Melville, que parou de escrever pouco tempo depois. Bartleby é um agente do caos, um destruidor da representação4. Bartleby simboliza uma doença, uma enfermidade, um mal endêmico das literaturas contemporâneas: a pulsão negativa, ou atração pelo nada, que paralisa as melhores mentes, que conduz não poucos escritores a dizerem um sonoro não para a escrita5.

Vale a pena dedicar algumas palavras ao último citado. No romance Bartleby e companhia, Vila-Matas cataloga e discute casos de escritores – reais e inventados – acometidos pela pulsão negativa, ou atração pelo nada, ou síndrome de Bartleby. E se o livro pode ser chamado de romance, talvez seja justamente pelos escritores inventados e pelos acontecimentos duvidosos atribuídos a escritores reais. Exemplo: "Melville teve a síndrome antes que seu personagem existisse, o que nos poderia levar a pensar que talvez tenha criado Bartleby para descrever sua própria síndrome." É sabido que Melville parou de escrever depois e não antes de Bartleby, o que sugere que a tese de Vila-Matas é uma invenção (um acontecimentos duvidoso atribuído a um escritor real), mas pouco importa, porque o objetivo era, provavelmente, inventar (qualquer leitor minimamente capacitado percebe que o texto é todo jogo e brincadeira). Seja como for, neste ponto Deleuze está mais próximo dos fatos: "Bartleby anuncia o longo silêncio no qual penetrará Melville, rompido apenas pela música dos poemas e de onde só sairá para Billy Budd." Vila-Matas não chegou a causar o bloqueio da minha escrita minguada, mas prejudicou minha interpretação, por muito tempo associei Bartleby ao não escrever. Como estou convencido de que é mais do que isso, resolvi inscrever minha interpretação entre as muitas disponíveis.

No escritório de um poeta-advogado, no centro de São Paulo, no final do século XX, havia centenas de enciclopédias, livros de capa dura que cobriam as paredes, acumulavam pó, absorviam a luz e sufocavam. Quando perguntávamos para que serviam aqueles livros, o poeta-advogado respondia que “não serviam para absolutamente nada!” É o mundo de Bartleby: escritório, pó, asfixia, pouca luz, repetição, ausência absoluta de propósitos.

Quando penso em Bartleby, vejo-o no escritório, diante de uma janela que dá para uma parede escurecida pelo tempo e pela sombra. A falta de luz e de visão sufoca. As janelas se abrem para paredes, não há esperança, só abandono. Tudo se passa em ambiente fechado: um escritório sem luz natural, sem ventilação e sem saída. A visão é bloqueada por todos os lados, como a vida dos homens, que apesar de tudo e sem porquê: existem.

O advogado-patrão-narrador do conto Bartleby afirma que "a felicidade flerta com a luz"6; se é assim e se o contrário é verdadeiro, é possível afirmar, com Camus, que "os homens morrem e não são felizes"7, o escrevente entre eles. Aliás, houve quem comparasse Bartleby a Camus, aquele seria um precursor deste, um homem revoltado contra o absurdo8.

Um dia o advogado-patrão-narrador é promovido a oficial e a carga de trabalho cresce no escritório, é quando Bartleby é contratado e entra na história: "palidamente limpo, tristemente respeitável, incuravelmente pobre!"9. A partir daquela manhã de verão o escrevente passa a habitar o conjunto de salas no segundo andar do n°... da Wall Street, mais precisamente atrás do biombo, sempre atrás do biombo, o que é tão sintomático como pouco comentado. Por que Bartleby se refugiava atrás do biombo? Ele chega a dizer "I would prefer to be left alone here" (Eu preferiria que me deixassem sozinho aqui, sendo que este "aqui" era atrás do biombo, é uma das poucas falas afirmativas do escrevente).

A equipe de "colaboradores" (para usar o jargão dos departamentos de RH) era formada por outros dois escreventes e um mensageiro: Turkey, Nippers e Ginger Nut (respectivamente: Peru, Alicate e Biscoito de Gengibre). Todos comandados pelo advogado-patrão-narrador. Turkey: mais de sessenta anos, ficava vermelho e tinha sua capacidade de trabalho seriamente comprometida depois do meio-dia, à tarde copiava com fúria e intensidade, fazia barulho, esmurrava os papéis e, sobretudo, produzia borrões. Nippers: mais ou menos vinte e cinco anos, pele amarelada, ambicioso, sofria de má digestão, rangia os dentes, ficava irritado e tinha sua capacidade de trabalho seriamente comprometida de manhã. Como as crises dos escreventes ocorriam em turnos alternados, o advogado conseguia tocar os trabalhos, no começo chegou a pensar que a contratação de Bartleby compensaria as oscilações dos outros dois copistas. O último a compor o ecossistema do escritório é Ginger Nuts: aproximadamente doze anos, órfão de pai, entregava mensagens, limpava e varria o escritório, comprava biscoitos de gengibre para os demais, daí o apelido.

Nas grandes obras toda palavra e toda sentença são gravemente calculadas, nada é à toa, as palavras e as sentenças entram apenas quando é absolutamente impossível ficarem fora. É o que se percebe em Bartleby à medida que a leitura pede releituras, conforme passamos pelos comentadores, quando saltamos de uma tradução para outra e até para o texto original, em inglês. Sim, é preferível cotejar o original, porque toda tradução tem um quê de traição, e a mania de evitar as repetições pode ser fatal no conto de Melville. Especialmente quando decidem evitar a repetição da sentença (I would prefer not to/Eu preferiria não), que Bartleby repete catorze vezes; uma variante da sentença (I prefer not/Eu prefiro não) é pronunciada três vezes pelo escrevente. É assim que está no texto original, mas as traduções variam. Quando o patrão-narrador insiste, o escrevente troca o futuro do pretérito (preferiria) pelo presente do indicativo (prefiro). É o que vai aparecer mais à frente, em As recusas, onde respeitei as sentenças pronunciadas no original, mantendo as repetições que, desconfio, são importantes para entender o caso Bartleby. Não acredito que Melville tenha criado o escrevente primeiro na cabeça para depois colocá-lo no papel, mais provável que conteúdo e forma tenham se forjado dialeticamente, porque são inseparáveis, daí a importância de manter as repetições que as traduções tentam evitar, daí a importância de contextualizar as recusas do funcionário.

Contar a história não prejudica quem ainda não leu porque o fundamental não está escrito, está no que não é contado. Resumidamente. Com o crescimento da carga de trabalho o advogado-patrão-narrador resolve contratar um terceiro escrevente, um rapaz jovem e pouco descrito. Sabemos apenas que era frágil e pálido, que tinha olhos cinza e rosto enxuto. É Bartleby. A partir do terceiro dia o escrevente se recusa a executar tarefas, começa se recusando examinar cópias, termina na cadeia, recusando comida: morre ao pé do muro, com os olhos abertos e sem brilho.

Diversas interpretações sobre o conto podem ser encontradas. Como escrevi, são todas possíveis, afirmar, como faço, que o caso Bartleby tem a ver com um adoecimento relacionado ao trabalho é só mais uma interpretação possível. Não se trata de definir exatamente o que houve com o escrevente, seria confundir ficção com realidade, mais interessante é apontar como a relação entre trabalho e adoecimento é pouco notada pelos comentadores do texto, apesar dos fatos acontecerem dentro de um escritório e de envolverem um patrão e um empregado.  

As recusas

1º) Nos três primeiros dias Bartleby produziu "quantidades extraordinárias de cópias", ainda que escrevesse em "silêncio, apático, mecânico." O narrador-patrão parece querer que o escrevente se alegrasse com o enfadonho trabalho de copista... No terceiro dia o narrador-patrão pede que o funcionário o ajude a revisar documentos, é quando aparece pela primeira vez a voz e a sentença de Bartleby: "Eu preferiria não".

2º) "Alguns dias depois", não sabemos ao certo quantos, o advogado-patrão volta a solicitar que Bartleby ajude a revisar cópias, recebe a resposta padrão: "Eu preferiria não". Mas insiste explicando que revisar cópias é parte do trabalho dos escreventes, é quando "Eu preferiria não" se torna "Eu prefiro não" pela primeira vez. O presente do indicativo substituiu o futuro do pretérito, a decisão deixa de ser condicional para se tornar "irreversível". A mudança no tempo verbal ocorre justamente quando estavam em questão os limites do trabalho do escrevente, é um indício de que naquele momento o patrão rompeu o acordo que havia firmado com o funcionário, tentando forçá-lo a executar uma tarefa para a qual não seria remunerado.

3º) "Passaram-se mais alguns dias, com o escrevente dedicado a outra tarefa de fôlego", novamente o narrador deixa de informar quantos dias, a situação se repete, o escrevente está concluindo cópias, o patrão informa que pretende conferir os documentos em conjunto, a resposta: "Eu preferiria não". Na sequência o narrador-patrão procura Bartleby pedindo-lhe que fosse ao correio ("uma caminhada de três minutos"), a resposta: "Eu preferiria não". O patrão insiste, o funcionário retruca com "Eu prefiro não". Depois o narrador pede que Bartleby vá à outra sala chamar Nippers, a resposta é "Eu prefiro não". Com a insistência do patrão, o presente do indicativo (prefiro) substitui o futuro do pretérito (preferiria).

4º) "Os dias se passavam" até que, "num domingo de manhã", o patrão resolve ir a igreja ouvir um renomado pregador, como chega muito cedo, resolve passar no escritório e é surpreendido por Bartleby, constata que o escrevente estava vivendo ali, ainda que "sem prato, espelho ou cama." Hilário: Bartleby diz que sentia muito, mas estava atarefado e preferia que o advogado não entrasse, atordoado, ele se retira e perde a missa. O narrador-patrão-advogado lamenta a condição do funcionário: "Que miserável solidão se revela aqui! Sua pobreza é imensa: mas esse isolamento, esse desamparo... que horror!" Ainda ele: "Aos domingos, Wall Street é tão deserta quanto Petra; e todas as noites de todos os dias é um só vazio."

5º) Segunda-feira de manhã, o patrão estava decido a conversar com Bartleby, caso este preferisse não responder, seria demitido, não sem receber um pouco a mais do que fazia jus. O advogado chama o escrevente uma vez, mas fica sem resposta, daí esclarece que não faria nenhum pedido, queria apenas conversar. Bartleby aparece. O narrador-patrão pergunta onde o escrevente havia nascido, resposta padrão: "Eu preferiria não". Então ele pede que o escrevente fale de si próprio, resposta padrão: "Eu preferiria não". Insiste: "Qual a sua resposta, Bartleby?" O escrevente retruca: "No momento prefiro não dar resposta". A insistência faz o "Eu preferiria não" (I would prefer not to) se tornar novamente "Eu prefiro não" (I prefer not). Na sequência ocorre uma recusa-chave, que não é percebida pelos filósofos (Deleuze e Agamben) nem pelos comentaristas em geral, o advogado se dirige "amigavelmente" ao funcionário e diz: "Bartleby, esqueça tudo aquilo sobre revelar-me sua história, mas deixe-me pedir-lhe, como amigo, que respeite integralmente as regras deste escritório. Prometa-me que amanhã e depois de amanhã você será meu auxiliar no exame dos documentos; prometa-me, em suma, que nos próximos dois dias você será minimamente razoável – prometa-me, Bartleby". A resposta: "No momento preferiria não ser minimamente razoável". O escrevente atordoa o patrão e os comentaristas, mas uma releitura atenta mostra que estava em disputa a revisão (exame) dos documentos, era o que um exigia e o outro recusava.

6º) Ainda segunda-feira de manhã. Estamos no ponto-chave do conto. Aquele "no momento" (at present) dito por Bartleby é revelador, por que naquele momento ele preferiria não ser minimamente razoável? Em outra oportunidade ele seria razoável? Não ser razoável teria a ver com a exigência de revisar documentos? Nippers se aproxima irritado (sofria de má digestão pela manhã). Turkey se aproxima calmo (ficava vermelho somente à tarde) e se dirige ao advogado: "Com sua permissão, senhor, ontem pensava em Bartleby, e pensei que, se ele talvez preferisse beber um quarto de cerveja da boa todo dia, que isso o ajudaria a se sentir melhor e, tenho certeza, o tornaria apto a auxiliá-lo com o exame da documentação." Era a última chance: a última saída antes do pedágio. É significativo que o convite tenha partido do funcionário mais experiente, que discretamente se oferece para ajudar e evitar o pior. O que teria acontecido se Bartleby passasse a "beber um quarto de cerveja da boa todo dia"? Ele se enturmaria com os outros funcionários? Criaria vínculos? Agiria coletivamente? É desnecessário especular o que aconteceria se Bartleby tivesse aceitado o convite de Turkey, porque seria outra história, provavelmente desinteressante. O essencial é que Turkey associa a cerveja à revisão (exame) de documentos. Ao reproduzir a fala de Turkey, o narrador revela que a questão-chave era Bartleby se recusar a revisar documentos. Como escrevente recebia por produção, quatro centavos por página (de cem palavras), é absolutamente razoável se recusar a conferir cópias, especialmente de terceiros. O narrador-patrão não comenta o acordo feito com o escrevente ao contratá-lo. É estranho um advogado não citar contratos, caputs, artigos, alíneas... Bartleby fecha a questão e as portas: "Eu preferiria que me deixassem sozinho aqui".

7º) Terça-feira. Ocorre a virada decisiva. Bartleby está de pé, de frente para uma janela que dá para uma parede. O advogado indaga por que ele não está copiando, Bartleby responde que havia decidido parar de escrever. O advogado pergunta: "qual é a razão?" Bartleby retruca: "Você não é capaz de ver a razão?" Se o patrão-narrador não vê ou não quer ver a razão é difícil de cravar, mas ele deixa pistas. Deleuze: "Pode-se supor que a contratação de Bartleby foi uma espécie de pacto, como se o advogado, depois de sua promoção, tivesse decidido converter esse personagem, sem referências objetivas, num homem de confiança que lhe deveria tudo. Quer fazer dele o seu homem. O pacto consiste no seguinte: Bartleby copiará, próximo de seu chefe, a quem ouvirá, mas não será visto, tal como um pássaro noturno que não suporta ser olhado. Então, não há dúvida, no momento em que o advogado pretende (sem querer fazê-lo de propósito) tirar Bartleby de seu biombo para cotejar as cópias com os outros, quebra o pacto. Por isso Bartleby, ao mesmo tempo que 'prefere não' cotejar, já não pode continuar copiando." Mas Deleuze não segue a pista, prefere analisar a “fórmula” (I would prefer not to), e escorrega; preferir não cotejar e deixar de copiar não acontecem ao mesmo tempo; é a quebra do “pacto”, e não a “fórmula”, que faz Bartleby parar de copiar. O conto não traz informações sobre o contrato de trabalho firmado entre o advogado e o escrevente, mas é plausível supor que o acordo se limitasse a copiar, não incluindo ir ao correio, chamar os outros escreventes, falar da própria vida e, sobretudo, revisar documentos. É somente após a recusa de Bartleby que o narrador-patrão menciona que conferir cópias fazia parte do trabalho do escrevente. Teria esclarecido esse ponto quando da contratação? Se houve falha de comunicação ou se o advogado deliberadamente ludibriava os funcionários é difícil de saber, a culpa que ele expressa aponta para a segunda opção, mas é impossível cravar, o fato é que o advogado pagava por página copiada, o trabalho de conferência não seria pago para Bartleby. Por se fixar na análise da “fórmula” (I would prefer not to), Deleuze deixa escapar o “pacto” e as formas de pagamento. Agamben vai mais longe, vê em Bartleby uma "implacável reivindicação do nada", mas não comenta o trabalho do copista e passa batido pela forma de remuneração: há mais coisas num escritório do que pode imaginar nossa vã filosofia.

8º) "Alguns dias se passaram." O patrão reflete e informa que o escrevente deveria deixar o escritório em seis dias, o primeiro ajudaria o segundo assim que este tomasse a iniciativa. O prazo termina, mas Bartleby permanece atrás do biombo. O narrador-advogado vai até o escrevente e diz: "É chegada a hora; você precisa deixar este lugar; sinto muito; tome aqui algum dinheiro; mas você precisa partir." Bartleby responde: "Eu preferiria não." Patrão: "Você deve." Deixa trinta e dois dólares para o escrevente e sai, mas antes esclarece que lhe devia apenas doze dólares, e que a diferença podia ficar para o funcionário.

9º) No dia seguinte pela manhã, o advogado chega ao escritório e percebe que o escrevente continuava por lá, involuntariamente bate na porta e Bartleby responde: "Ainda não; estou ocupado." Quando entra no escritório o narrador-patrão constata que o funcionário além de continuar por lá, não havia pegado o dinheiro, ele procura Bartleby e lhe dirige a palavra com energia: "Você vai ou não vai embora." Resposta padrão: "Eu preferiria não ir." O escrevente já não copiava, era como uma peça do mobiliário, tinha longos devaneios diante da janela que dava para uma parede.

10º) "Passaram-se alguns dias", o narrador-patrão lê tratados teológicos, chega a pensar que sua missão no mundo era manter o escritório para que o escrevente pudesse permanecer pelo tempo que fosse necessário. Mas a presença de Bartleby começa a gerar fofocas, prejudicando os negócios, ocorre ao advogado que o escrevente pudesse ser longevo, e pior, que poderia reclamar a posse do escritório. O narrador-patrão "sugere" que o escrevente se retire definitivamente, mas depois de três dias recebe a resposta, Bartleby preferia não se retirar. A solução é drástica, o patrão muda o endereço do escritório e deixa o escrevente para trás.

11º) O advogado-narrador mantém a porta do novo escritório fechada por dois dias, com medo de que o escrevente pudesse aparecer. Mas só depois de aproximadamente duas semanas que chegam notícias de Bartleby. Várias pessoas procuram o narrador, inclusive o locatário do antigo escritório, pedem ajuda para retirar o escrevente do prédio: expulso do escritório, passava os dias sentado no corrimão e as noites dormindo na entrada do imóvel. O narrador pensa em não ajudar, mas teme ver seu nome exposto nos jornais. Resolve procurar Bartleby, desde que pudesse conversar com ele de forma reservada. O advogado informa ao escrevente que, se este não fizesse alguma coisa, alguma coisa seria feita contra ele. Recebe a resposta padrão: "Eu preferiria não". Pergunta se o ex-funcionário gostaria de exercer algum outro ofício: vendedor, atendente, viajar pelo país fazendo cobranças? Resposta: "Eu preferiria não". Tentativa absurda: "E ir para a Europa como acompanhante e entreter algum jovem cavalheiro com suas palavras, será que isso não serve?" Bartleby entretendo alguém com sua conversa... Resposta: "De maneira nenhuma. Não me agrada. Não há nada certo e definido nisso. Gosto de ficar parado. Mas não sou exigente." Última tentativa, indagado se aceitaria dividir o mesmo teto que o advogado (lar e não escritório), pelo menos até acharem uma solução, Bartleby responde: "Não, no momento eu preferiria não fazer qualquer mudança."

12º) "Alguns dias" se passam. O narrador recebe uma mensagem informando que o locatário havia denunciado Bartleby, que estava preso. O patrão procura seu ex-funcionário na cadeia, ao chamá-lo, ouve: "Não quero lhe dizer nada." Antes de deixar a prisão, o advogado aceita pagar propina, dá dinheiro ao cozinheiro (cara-da-boia) para que este prepare comida diferenciada para o preso. Quando o jantar é oferecido a Bartleby, a resposta é dura e direta, prescinde da condicional: "Prefiro não jantar hoje" (I prefer not dine today). Alguns dias depois o narrador-patrão volta a visitar Bartleby e o encontra morto ao pé do muro, tinha os olhos abertos, mas sem brilho.

Há mais coisas num escritório do que pode imaginar nossa vã filosofia

Confesso que tive vontade de chamar este tópico de Miséria da filosofia. Seria uma homenagem a Marx e um deboche com os filósofos. Mas seria também arrogante, pretensioso e falso. A questão não é esboçar uma interpretação para excluir as demais, trata-se de chamar a atenção para alguns detalhes do texto e para a relação entre trabalho e adoecimento. Então preferi evitar, optei pela elegância britânica. A propósito e considerando que Melville e Marx foram contemporâneos, exercício interessante, e por fazer, é pesquisar se um leu o outro. Bartleby pode ser pensado a partir da categoria estranhamento (entfremdung), que estava sendo trabalhada um pouco antes da criação do escrevente.

Mas voltemos aos filósofos, mais precisamente Deleuze e Agamben. O primeiro discute "a fórmula" de Bartleby (I would prefer not to). O segundo usa Bartleby para discutir a "ambuiguidade da potência (que é sempre potência de fazer e de não fazer)".

Para Deleuze, a fórmula (I would prefer not to/Eu preferiria não) do escrevente "aniquila 'copiar', a única referência em relação à qual algo poderia ou não ser preferido".  Mais Deleuze: a fórmula "exclui qualquer alternativa e engole o que pretende conservar assim como descarta qualquer outra coisa; implica que Bartleby para de copiar, isto é, de reproduzir palavras; cava uma zona de indeterminação que faz com que as palavras já não se distingam, produz o vazio da linguagem." Só que o filósofo não explica por que Bartleby continua copiando, por que só muito depois da fórmula ele decide parar de copiar? Ainda Deleuze: "O próprio Bartleby só tinha como saída calar-se e retirar-se para trás de seu biombo cada vez que pronunciava a fórmula, até seu silêncio final na prisão. Depois da fórmula não há mais nada a dizer." A questão central, segundo o filósofo, é que a fórmula do escrevente "desarticula os atos de fala" do próprio e dos demais, aumentando a indeterminação da linguagem: "I prefer not to é também um traço de expressão que contamina tudo, fugindo à forma linguística, destituindo o pai da sua palavra exemplar, tanto quanto o filho de sua possibilidade de reproduzir ou de copiar." Mas por que o escrevente formulou a fórmula? É Deleuze quem responde: "tão logo o advogado pretende fazê-lo abandonar seu biombo, Bartleby emite sua fórmula." Mas então ele tinha preferências, preferia se refugiar atrás do biombo. Até o terceiro dia o escrevente havia produzido uma quantidade extraordinária de cópias: "Não conhecia pausa para digestão. Copiava dia e noite, fosse ao sol ou à luz de velas." É quando o advogado pede-lhe que examine uns poucos papéis e ouve como resposta: "I would prefer not to/Eu preferiria não." São as primeiras palavras e é a primeira negativa do escrevente. Ou seja, Bartleby estava copiando e é interrompido, o advogado manda que ele pare para ajudar a revisar documentos. Colocada neste contexto, a fórmula (I would prefer not to/Eu preferiria não) indica que Bartleby preferiria continuar copiando, se não porque gostasse da tarefa (o que é difícil de imaginar), pelo menos por outras razões que precisam ser elucidadas. Neste ponto Deleuze escorrega, para o filósofo, o escrevente "precisava recusar um (examinar documentos) para tornar o outro impossível (copiar documento)". É uma meia verdade. Bartleby precisava se recusar a revisar documentos para poder copiar documentos, daí a fórmula (I would prefer not to/Eu preferiria não). Se dissesse "preferiria não revisar" ou "preferiria apenas copiar" não haveria mistério. Há um fato, uma miudeza de escritório, que passou batido dos filósofos e demais analistas (as tais coisas que a vã filosofia deixa escapar): Bartleby produzia cópias por quatro centavos a página (com cem palavras). Trabalhadores que ganham por produção, como os cortadores de cana, costumam deixar de ir ao banheiro e até morrem trabalhando. Ora, se o escrevente ganhava por produção (cópia produzida), havia uma forte razão para ele preferir não revisar documentos, nem ir ao correio, nem chamar outro copista na sala vizinha, nem perder tempo respondendo às perguntas do chefe (Onde nasceu? Pode me contar alguma coisa?). Na minha enumeração, é só depois da sexta negativa (I would prefer not to/Eu preferiria não) que o escrevente decide parar de copiar, justamente depois de ser interrompido para conferir documentos, ir ao correio, chamar outro copista na sala vizinha e responder perguntas do chefe. É como se Bartleby suportasse o trabalho repetitivo e braçal, mas não suportasse parar para atender aos pedidos do chefe: ou porque significavam reduções salariais, ou porque aquelas pausas o retiravam de trás do biombo, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Deleuze percebe esta possibilidade, como se houvesse um "pacto" estabelecido entre o patrão e o escrevente: "no momento em que o advogado pretende (sem querer fazê-lo de propósito) tirar Bartleby de seu biombo para cotejar as cópias com os outros, quebra o pacto." Mas o filósofo se concentra na "fórmula" e não desenvolve o raciocínio sobre o "pacto", por isso não percebe que Bartleby era remunerado por produção de cópias (quatro centavos a página com cem palavras). Mas, registre-se, a ideia deleuzeana de que a “fórmula” de Bartleby "exclui qualquer alternativa e contamina tudo" teve exatamente o efeito que descreve, contaminou tudo e excluiu qualquer alternativa: da filosofia à psicanálise passando pela crítica literária, não há quem discuta o conto de Melville sem reproduzir a ideia de Deleuze. Curioso notar que, por mais excêntrica e poética que seja a "fórmula" de Bartleby, as capacidades de trabalho do mensageiro e dos outros escreventes não foram nem "aniquiladas" nem "excluídas". Apesar de incorporarem o verbo preferir nas falas cotidianas, nenhum dos personagens disse "eu preferiria não" ao trabalho, muito mais longe estiveram de dizer "nós preferiríamos não", na primeira pessoa do plural, é o limite da ideia deleuzeana e da "fórmula" do escrevente.

Para Agamben, Bartleby pertence à "constelação literária" dos escreventes (Akaki Akakievitch, os kafkianos anônimos, Bouvard e Pécuchet), mas também pertence a uma "constelação filosófica", e, talvez, "apenas esta contenha a cifra da figura que a outra se limita a traçar." O filósofo vai de Aristóteles a Nietzsche em busca da "cifra" de Bartleby, discute vontade e potência a partir da “fórmula” (I would prefer not to/Eu preferiria não) do escrevente. Segundo Agamben, a “fórmula” de Bartleby "abre uma zona de indiscernibilidade entre o sim e o não, o preferível e o não preferido. Mas também [...] entre a potência de ser (ou de fazer) e a potência de não ser (ou de não fazer)." Mais Agamben: "A infinita repetição daquilo que aconteceu abandona totalmente a potência de não ser. No seu obstinado copiar, como no contingente de Aristóteles, 'nada existe de potente não ser'. A vontade de potência é, na verdade, vontade de vontade, ato eternamente repetido, e só deste modo potenciado. Por isto o escrivão deve deixar de copiar, renunciar à cópia." Ainda Agamben: "Bartleby não consente, nem sequer simplesmente recusa, e nada lhe é mais estranho do que o páthos heróico da negação." Para fazer filosofia a partir do conto de Melville, Agamben precisa ignorar as miudezas de escritório, e do próprio texto. Esquece que o escrevente produziu "quantidades extraordinárias de cópias" nas primeiras semanas. Ignora que o escrevente prefere não revisar os documentos que produz, provavelmente porque ganha por cópia produzida e não por cópia revisada. Agamben passa batido também pela ideia deleuzeana de rompimento do “pacto”, apesar de ter lido o texto do francês. O filósofo italiano prefere discutir vontade e potência a partir da “fórmula” (I would prefer not to/Eu preferiria não). Para Agamben, a infinita repetição do copiar aparece como abandono da potência de não ser, e não como consequência do pagamento por produção (quatro centavos a página com cem palavras). Isso quando já se sabia que o pagamento por produção mata muitos Bartlebies no mundo real.

Ao constatar que era impossível obrigar Bartleby a executar tarefas, especialmente revisar documentos, o advogado-patrão toma uma atitude drástica: muda de escritório deixando o escrevente para trás (como o capital muda de país quando suas exigências não são atendidas). Ali ocorreu uma concordância que depõe contra Deleuze e Agamben. Durante a mudança o advogado ordenou que o escrevente ficasse atrás do biombo. Bartleby obedece, e é como se dissesse que preferiria ficar ali. Algumas ordens ele cumpria (passou os primeiros dias copiando sem parar). Então há algo que podia ser preferido e conservado, não há uma zona de indeterminação que faz com que as palavras não se distingam (Deleuze). Então não há uma zona de indiscernibilidade entre o sim e o não (Agamben).

Remuneração por produção + captura da subjetividade = doença do trabalho

Não é Bartleby que se retira para trás do biombo, são as solicitações do chefe que retiram Bartleby de trás do biombo: este é o limite, a possibilidade e a desgraça do escrevente. Pode ser chocante para os filósofos consagrados (acostumados com as universidades, as conferências e as entrevistas); mas não espanta quem conhece a realidade dos escritórios (os despachos, os contratos e os escaninhos): Bartleby poderia passar a vida copiando calado, atrás do biombo; poderia morrer copiando, inauguraria o que ficou conhecido como Karoshi (morte por excesso de trabalho). O "pacto" firmado Bartleby talvez lhe permitisse viajar para longe dali nos pensamentos, é essa subjetividade que as solicitações do chefe ameaçavam capturar, e talvez por isso a obstinada resistência do escrevente. Revisar cópias em voz alta violaria sua subjetividade. Um homem pode executar uma tarefa mecânica, como copiar contratos, "pensando numa mulher ou num time"10, ou imaginando versos; não conseguirá fazer o mesmo revisando documentos coletivamente. É uma possibilidade para explicar por que o escrevente se refugiava atrás do biombo, seus problemas começavam sempre que lhe tiravam de lá. Há uma indicação do patrão-narrador que vai nessa linha, diz ele que não conseguiria imaginar o poeta Byron revisando documentos legais. Também este é um caminho interpretativo que escapou dos filósofos e demais analistas: e se Bartleby fosse poeta, e se imaginava poemas enquanto trabalhava, e se escolhia palavras entre as que copiava? Pelo menos um verso ele deixou: "I would prefer not to/Eu preferiria não". 

É a ruptura do acordado entre Bartleby e o patrão que faz o escrevente recusar tarefas e, na sequência, se recusar inclusive a copiar. Como o advogado-narrador praticamente não detalha o acordo de contratação (o que é estranho para um homem da lei), surge a ambiguidade que permite infinitas interpretações. Sabe-se, apenas, que o escrevente recebia por cópia produzida (quatro centavos por página com cem palavras). Nunca saberemos se o acordado seria pagar apenas após a revisão das cópias produzidas, porque somente a versão do patrão é conhecida, mas, se fosse assim, o trabalho não pago seria ainda maior. Para o patrão, revisar as cópias produzidas fazia parte do trabalho do escrevente, as recusas deste eram vistas por aquele como "privilégios e concessões". Nunca saberemos qual é a versão de Bartleby. O advogado jamais perguntou se o escrevente preferiria apenas copiar, sem revisar as cópias. Por mais indulgente que tenha sido, o patrão jamais cogitou tolerar que Bartleby se recusasse a revisar os documentos que o próprio ou dos demais produziam. É a fórmula (I would prefer not to) que narrador-patrão não pronuncia, mas emprega: Eu preferiria não pagar pela revisão das cópias. "Apenas como personificação do capital, o capitalista é respeitável. Como tal, ele partilha com o entesourador o instinto absoluto do enriquecimento."11 Interessante notar que o advogado não contesta as primeiras recusas do escrevente porque estava muito atarefado, ou seja, estava submetido ao tal "instinto absoluto de enriquecimento". Perto do fim, quando Bartleby está prestes a ser preso, o patrão se propõe a levar o escrevente para casa, mas não cogita levá-lo para o novo escritório. Age exatamente como uma personificação do capital. Poderiam as recusas de Bartleby paralisar os demais trabalhadores e, consequentemente, os lucros? A "fórmula" do escrevente produzir um "vazio da linguagem" seria tolerável. A "fórmula" do escrevente inviabilizar o processo de trabalho seria intolerável. É o que explica por que o patrão convidou o escrevente para dividir o teto do seu próprio lar, mas não do seu novo escritório.

Há uma questão laboral que é chave para compreender o caso Bartleby. A ruptura do acordado fulminou o sistema imunológico que protegia o escrevente do trabalho. Mas, como a história é contada na perspectiva do patrão, as informações são camufladas ou até omitidas, produzindo ambuiguidade e infinitas interpretações. Restam apenas indícios. Nippers sofria com questões ergonômicas e de má digestão, tinha sua capacidade de trabalho seriamente reduzida de manhã. Turkey sofrida de uma vermelhidão indeterminada que lhe prejudicava a capacidade de trabalho à tarde. Seriam males relacionados ao trabalho? Bartleby foi contratado com a expectativa de estabilizar as oscilações de Nippers e Turkey, mas teve sua capacidade de trabalho completamente liquidada (de manhã e à tarde). Esperava-se que Bartleby herdasse as capacidades laborais dos outros escreventes (Turkey pela manhã e Nippers à tarde); mas ocorreu o inesperado, ele herdou a incapacidade laboral dos outros (Nippers pela manhã e Turkey à tarde). Bartleby é a síntese, pela negativa, de Turkey e Nippers, uma possibilidade que estava presente nas incapacidades de ambos. 

Sabe-se, apenas, que Bartleby ganhava por produção: quatro centavos por página com cem palavras. Não sabemos qual era a forma de pagamento dos outros escreventes, mas há um indício pouco notado. Ginger Nuts não era escrevente, apenas entregava mensagens e limpava o escritório por um salário semanal de um dólar. Ou seja, ganhava por tempo de trabalho e não por produção, como Bartleby. Para receber um dólar por semana, como Ginger Nuts, Bartleby precisava copiar vinte e cinco páginas (duas mil e quinhentas palavras). Se os outros escreventes recebiam por tempo de trabalho e não por produção de cópias, seria fácil entender por que Bartleby se recusava a revisar documentos produzidos, enquanto os demais não reclamavam: o que para os outros seria um relaxamento, para ele seria uma redução salarial. A influência nefasta da remuneração por produção sobre a saúde dos trabalhadores é conhecida de longa data. É espantoso que esta chave não tenha sido utilizada para analisar o caso Bartleby, mostra que a forma de pagamento está camuflada no conto, que os analistas não costumam revisar os textos que comentam e, sobretudo, que os adoecimentos relacionados ao trabalho são pouco conhecidos.

Os pagamentos por produção causam insegurança aos trabalhadores, que não sabem ao certo quanto receberão; e intensificam o trabalho, provocando acidentes e adoecimentos. Além disso, é comum os patrões se utilizarem de artimanhas para reduzirem os pagamentos. Por exemplo: a cana de açúcar é cortada e medida em metros, mas os pagamentos aos trabalhadores costumam ser realizados com base no peso, possibilitando fraudes e extorsões. O resultado é que os cortadores são forçados a trabalhar cada vez mais, às vezes mais do que suportam. Pagar por cópia produzida e exigir que o escrevente revise os documentos é não remunerar uma parte do trabalho. Sabemos que Bartleby não bebia cerveja e não fazia refeições em restaurantes, ele guardava suas economias na gaveta e se alimentava com bolinhos de gengibre. Estaria juntando dinheiro para publicar um livro, casar, ajudar parentes, voltar para sua terra, trazer a família para a cidade grande? Se sim, não é estranho que o escrevente tentasse produzir cada vez mais (cópias), é o que fazem os cortadores de cana e outros trabalhadores remunerados por produção.

Antes de parar de copiar, Bartleby se recusa, essencialmente, a revisar cópias. Por duas vezes o futuro do pretérito (preferiria) havia avançado para o presente do indicativo (prefiro). As recusas (I prefer not/Eu prefiro não) a ir ao correio e a chamar Nippers na sala ao lado ocorrem depois das recusa a revisar cópias. O tempo que separa a primeira recusa (revisar) da completa paralisação da capacidade de trabalho (copiar) mostra que ocorreu um processo, a capacidade laboral foi se esgotando aos poucos, o que sugere a ocorrência de adoecimento relacionado ao trabalho. Além disso, sabe-se que “o psicótico, em situação de absoluta recusa, pode adotar uma posição irônica, pontuando a inconsistência das referências que lhe são apresentadas, ou pode mesmo se isolar em seu mutismo.”12 Outros indícios: os males de que padeciam os demais escreventes; a sugestão do narrador de que o mal de Bartleby tivesse relação com sua ocupação anterior, estaria tentando se resguardar? 

Seja como for, se pelo texto é impossível estabelecer o nexo causal entre o colapso da capacidade produtiva de Bartleby e o trabalho, no mundo real não é diferente. O capital esconde os adoecimentos relacionados ao trabalho com o mesmo vigor que esconde dinheiro em paraísos fiscais.

 A mulher do sótão

A palavra mulher aparece uma única vez no conto de Melville, talvez por isso passa despercebida. Os homens não têm mães, irmãs, esposas ou amantes. Da mulher do sótão sabe-se apenas que residia no edifício que abrigava o escritório, que ela varria diariamente, esfregava semanalmente e tinha uma cópia da chave. Por que Melville colocou a mulher no conto? Ela ficar com uma cópia da chave é irrelevante, nem os funcionários nem o patrão precisaram daquela cópia. Ela varrer e esfregar são tarefas duplicadas, um possível escorregão de Melville, basta lembrar que o mensageiro, Ginger Nuts, também era responsável por limpar o escritório. Além disso, ela jamais cruza com qualquer um dos personagens, apesar de frequentar o mesmo espaço diariamente. Se é assim, qual a função dela?

A mulher do sótão é uma possibilidade que Bartleby não conseguiu realizar: um ser invisível, sem nome, sem rosto e que dominava a nobre arte de desaparecer, como um bicho do mato. A mulher do sótão se escondia atrás das vassouras. Bartleby não conseguiu se esconder atrás do biombo.

Mas não é só. A mulher do sótão é uma prova que Melville faz o narrador produzir contra si próprio, mas como ela aparece uma única vez, é praticamente invisível, o caso quase não é notado, como a remuneração por produção de Bartleby. O advogado diz sentir um irresistível desalento pela pobreza e pela solidão do escrevente, que morava no escritório: "Aos domingos, Wall Street é tão deserta quanto Petra; e todas as noites de todos os dias é um só vazio. Este edifício também, que nos dias da semana se enche de vida e trabalho, tão logo a noite cai torna-se pura ausência, e durante o domingo resta-lhe apenas o abandono." Por que o narrador não sente a mesma compaixão pela mulher do sótão? Ela também é sua contratada e mora no edifício, além de, provavelmente, habitar um cômodo sem iluminação; e "a felicidade flerta com a luz", segundo ele. Se é assim, ou advogado não se compadece verdadeiramente por Bartleby, ou sua moral é seletiva, porque ele não demonstra nenhuma compaixão pela mulher do sótão.

O narrador suspeito

Narrativas em primeira pessoa, como Bartleby, podem gerar conflitos de interesse, porque quem conta a história tem interesse no desfecho. Ocorre no Grande Sertão: Veredas. O narrador, Riobaldo, tem interesse na história, especialmente em relação a uma das personagens, Diadorim.

Por que o advogado-narrador não esclarece as formas de remuneração dos escreventes Turkey e Nippers? Por que ele não se espanta quando o escrevente ocupa o escritório dia e noite, inclusive copiando "à luz de velas"? Por que ele se espanta apenas quando encontra Bartleby no escritório num domingo de manhã, justamente quando imagina que o escrevente não estivesse copiando? "Havia algo em Bartleby que não permitia supor que pudesse conspurcar a solenidade do dia com alguma ocupação secular." Teria se espantado se encontrasse Bartleby copiando naquele domingo de manhã? Por que o advogado-narrador tem necessidade de contar que o escrevente, anteriormente, havia trabalhado como assistente da Seção de Cartas Extraviadas? Ele mesmo afirmou que não havia necessidade de dar sequência à história. Preferiria associar a morte de Bartleby a problemas adquiridos na ocupação anterior, camuflando o adoecimento ocorrido no seu escritório?

Deleuze também coloca o narrador sob suspeição: "Talvez Bartleby seja o louco, o demente, o psicótico ('uma desordem inata e incurável' da alma). Mas como sabê-lo, se não se levam em conta as anomalias do advogado, que se comporta o tempo todo de modo muito esquisito?" A esquisitice do advogado não tem a ver com loucura, demência ou psicose. A esquisitice dele tem a ver com sua habilidade para contar a história camuflando fatos, ou até omitindo-os, de forma a não se comprometer, evitando produzir provas contra si próprio, afinal, era, sobretudo: "prevenido", além  de ser um homem das leis13.

Bartleby e Emma Bovary

Intimado a dizer em quem se baseou ao criar sua personagem mais famosa, Gustave Flaubert teria respondido "Emma Bovary sou eu". Intimado pela consciência a explicar a morte de Bartleby, o narrador teria escrito o conto? É uma possibilidade, mas não é uma solução, apesar da culpa que o sujeito carregava.

Madame Bovary e Bartleby: os opostos que se completam, os contemporâneos extemporâneos. No romance de Flaubert a exuberância dos detalhes: as coisas, os homens e até as igrejas se curvando à adultera. No conto de Melville os detalhes cuidadosamente escondidos, ou até omitidos: a precária verdade dos escaninhos.  

Ela, uma provinciana, na Normandia. Ele, um escrevente, em Wall Street. Tão longe e tão perto, tão diferentes e tão apaixonantes, tão absurdos e tão humanos. Ambos continuarem absolutamente atuais depõe a favor da literatura e contra o tempo presente. Quantos Bartlebies e quantas Emmas morrerão no mundo real até que os personagens se tornem apenas uma lembrança incômoda? Ah, Emma! “Ah, Bartleby! Ah, humanidade!”

Kafka, Bartleby e Borges

Com a lucidez que só os grandes escritores possuem, Borges14 escreveu que "Kafka projeta sobre Bartleby uma curiosa luz posterior. Bartleby já define um gênero que Franz Kafka reinventaria e aprofundaria a partir de 1919: o das fantasias do comportamento e sentimento ou, como agora lamentavelmente se diz, psicológicas."

É certo que Kafka "projeta uma curiosa luz posterior" sobre Bartleby. Mas a linha de continuidade não é o "gênero das fantasias do comportamento e sentimento", é o trabalho. Com Kafka as profissões são mais importantes do que o nome dos personagens, é o caso, por exemplo: do agrimensor K. e do caixeiro-viajante Gregor Samsa. No conto de Melville ocorre o mesmo, os advogados não tem nome; a mulher do sótão idem, dela sabemos apenas que limpava e varria o escritório; Bartleby não tem nem família, nem amigos, mas sabe-se que anteriormente havia sido empregado na Seção de Cartas Extraviadas. Mas há linhas de descontinuidade, também. Os principais personagens de Kafka são Bartlebies invertidos. Gregor Samsa se preocupa com o trabalho, mesmo tendo sido transformado num inseto. Joseph K. convive com um processo em que não consegue descobrir do que é acusado, sequer lhe ocorre reivindicar o direito ao contraditório e à ampla defesa. O agrimensor K. exige o emprego que lhe havia sido oferecido, acaba perdido num labirinto tão burocrático quanto infinito, mas não desiste e não hesita. Gregor Samsa, Joseph K. e o agrimensor K.:  reações normais em situações absurdas. Bartleby: reação absurda em situação normal. O escrevente se recusa a executar as tarefas que lhe são solicitadas, especialmente revisar documentos. Ser transformado num inseto (Gregor Samsa) é uma situação absurda. Ter parte do trabalho não pago (Bartleby) é uma situação normal na sociedade capitalista. 

Se "Kafka projeta sobre Bartleby uma curiosa luz posterior", como quer Borges, o inverso é verdadeiro, também. Bartleby ainda desperta compaixão, mesmo que hipócrita, o absurdo não estava naturalizado e regulamentado, era possível denunciá-lo, mesmo que involuntariamente. Para os personagens de Kafka já não se coloca o “preferiria não”, todos “prefeririam sim”, não por livre e espontânea vontade, mas porque não há absolutamente nenhuma alternativa. Gregor Samsa, Joseph K. e o agrimensor K são herdeiros de Bartleby. Bartleby é o avô de Gregor Samsa, de Joseph K. e do agrimensor K.  Há muita esperança no mundo, mas não para eles15.

Há um personagem menos famoso de Kafka que, por oposição, dialoga com o escrevente de Melville, é o artista fome, também ele magro, pálido e justo. Trata-se de um jejuador que passava semanas trancado em jaulas, sem nenhum alimento. Só ele e mais ninguém sabia que jejuar era coisa mais fácil do mundo: “no quadragésimo dia eram abertas as portas da jaula coroada de flores, uma plateia entusiasmada enchia o anfiteatro, uma banda militar tocava, dois médicos entravam na jaula para proceder às medições necessárias no artista da fome, os resultados eram anunciados à sala por um megafone e finalmente duas moças, felizes por terem sido as sorteadas, ajudavam o jejuador a sair da jaula, descendo com ele alguns degraus de escada até uma mesinha onde estava servida uma refeição de doente cuidadosamente selecionada. Mas o artista da fome sempre resistia.”16 Preferiria não? As cidades paravam para assistir ao estranho espetáculo, mas o jejuador era triste porque “ninguém conseguia levá-lo a sério”, “se alguma vez uma pessoa bem-intencionada se compadecia dele e queria-lhe explicar que sua tristeza provavelmente vinha da fome, podia acontecer – em especial no estágio avançado do jejum – que respondesse com um acesso de fúria e começasse a sacudir as grades como um animal, para susto de todos.” Com o tempo e a repetição, o espetáculo foi perdendo o brilho. O artista da fome demitiu seu empresário e foi trabalhar num circo “sem se atentar ao contrato” (o "pacto", ou acordo – no caso de Bartleby). A jaula do artista da fome foi posicionada perto do estábulo. O jejuador percebeu que o público passava por ali para visitar os animais, e não para apreciar sua arte. Então, radicalizou, ampliou os jejuns, até que afundou na palha que usava para dormir e desapareceu. Um dia o inspetor perguntou aos serventes por que aquela jaula ficava sem uso e cheia de palha apodrecida. Foi quando se lembraram do jejuador, vasculharam a palha e o encontraram. Antes de morrer, o artista da fome confessou que jejuava porque nunca encontrou alimento que lhe agradasse. Desconfio que Bartleby confessaria que preferia copiar, atrás do biombo. O artista da fome foi enterrado junto com a palha apodrecida. O narrador-patrão de Bartleby considerou a hipótese de deixar o escrevente viver e morrer no escritório, sepultando, posteriormente, os restos mortais na parede (mas temia que o funcionário pudesse ser longevo e, quem sabe, reivindicar a posse do imóvel). A palha na jaula do artista da fome é o biombo no escritório de Bartleby, a diferença é que o jejuador quer aparecer, mas desaparece, enquanto o escrevente quer desaparecer, mas não consegue. A prisão do artista da fome está relacionada com o trabalho, no caso escrevente idem. Em ambos, o trabalho. Bartleby é um artista da fome que preferiu não. O artista da fome é um Bartleby preferiu sim. Os dois morreram por inanição.

As lições

Bartleby resiste, sem dúvida, mas como? Como pode! Simples assim! O biombo atrás do qual se refugiava era sua última linha de defesa. Seu sistema imunológico dependia do acordo firmado com o patrão. Se pudesse ao menos copiar e ser remunerado a quatro centavos por página de cem palavras, conforme havia combinado... Talvez morresse trabalhando, como o artista da fome, mas duraria mais tempo. Já não havia trabalho não pago suficiente num página com cem palavras remunerada a quatro centavos? Quanto valia efetivamente cada página copiada? Quanto o patrão-narrador ganhava por palavra? Era preciso exigir que revisasse documentos sem ser remunerado? Sim. Era. Bartleby é íntegro, o capital e suas personificações não são; o primeiro nunca aceitou nenhum tostão que não fosse fruto do seu trabalho, os outros insistem em não pagar pela mão-de-obra que utilizam, e não obedecem a nenhum acordo se tiverem força para burlá-lo. Esta é uma das lições do caso Bartleby. Não há acordo com o capital e suas personificações, “é querer ensinar um leão a comer alface” – diria um amigo.

Uma única vez Bartleby empregou o presente do indicativo (prefiro) de primeira, sem passar pelo futuro do pretérito (preferiria), foi quando o cozinheiro da cadeia (cara-da-boia) lhe ofereceu o jantar preparado após receber a propina paga pelo narrador. Depois morreu como o artista da fome. Mas não importa, a caridade do patrão era inaceitável. Bartleby não recusa absolutamente tudo, recusa a caridade moralista e seus complementos (como não pagar pelo trabalho que emprega), queria apenas ganhar pelas cópias que produzisse, conforme havia combinado. Mas o capital e suas personificações não cumprem acordos.

Outra lição do caso Bartleby. A resistência individual é inútil, não importa o quanto possa ser justa, radical e até poética. Fechado em si mesmo, atrás do biombo, o escrevente afastou a única possibilidade efetiva de resistência: a coletiva. “Eu preferiria não (I would prefer not to)” não se transformou em Nós preferiríamos não (We would prefer not to). São engraçados os exageros sobre Bartleby, atestam que os filósofos têm dificuldade para enxergar – e imaginar – algo além da recusa individual. A “fórmula” do escrevente “desarticula os atos de fala” [...], “destituindo o pai da sua palavra exemplar” (Deleuze). A “fórmula” do escrevente “abre uma zona de indiscernibilidade entre o sim e o não” (Agamben). Bartleby “solapa as coordenadas do sistema do qual se subtrai”, como se fosse a carta que, retirada, derruba o castelo de cartas (Žižek)17. Mas que prejuízo o escrevente causou ao patrão? O trabalho parou? Não. Houve greves ou paralizações? Não. Os trabalhadores reivindicaram aumento salarial ou melhores condições de trabalho? Não. O texto é literal demais para deixar dúvidas. Bartleby não incomodou porque a produção diminuiu (nenhum trabalhador seguiu seu exemplo, é mais provável que tenham se ocupado com as tarefas que ele se recusava a executar). Bartleby incomodou porque ficava parado de frente para a janela sem fazer absolutamente nada que não fosse dizer “Eu preferiria não”. Foram os bochichos e as fofocas que assustaram o patrão. Ao menor risco, o advogado mudou o endereço do escritório e deixou o escrevente para trás, como o capital muda de país quando suas exigências não são atendidas. A sentença de Bartleby (I would prefer not to) é mais eficiente para seduzir os filósofos do que para derrubar o capital. Os filósofos esqueceram o final do conto? Não lembram o que aconteceu com o escrevente? No romance A imortalidade, Milan Kundera18 parafraseia Rimbaud para criticar o tempo presente: “ser absolutamente moderno é ser aliado dos seus próprios coveiros.” Fazer louvação da recusa individual de Bartleby é se aliar aos coveiros do escrevente. Seria mais produtivo – e sincero – confessar que a história acabou e que qualquer tentativa de resistência coletiva é impossível19.

Quando ocorrem acidentes ou adoecimentos relacionados ao trabalho, o capital atua para transformar vítimas em culpados, como se estes tivessem deixado de cumprir regras ou orientações, é o que se chama de “teoria do ato inseguro”, que atua para absolver o processo de produção capitalista. Transformar a vítima (Bartleby) em herói, não resolve absolutamente nada, antes serve para, de outra forma, absolver o processo de produção capitalista, que não é questionado. Repetindo as perguntas. Por que Nippers tinha sua capacidade laboral comprometida pela manhã? Por que Turkey tinha sua capacidade laboral comprometida à tarde? Por que Bartleby teve sua capacidade laboral comprometida totalmente? Tais fenômenos estariam relacionados ao trabalho? Teriam relação uns com os outros?

Bartleby certamente diria que “Eu preferiria não”: nem culpado, nem herói. Num tempo em que o desemprego é oceânico e que as condições de sociabilidade são precárias, passa batido que o processo de produção capitalista causa adoecimentos e mortes, e não apenas exclusão e concentração de renda. É a principal lição do caso Bartleby. Por fim, lembremos o mote do movimento operário italiano dos anos 1960: "saúde não é mercadoria, não se negocia!"

Epílogo

Prefiro ver Bartleby como um poeta de um único verso. “Eu preferiria não” é forte como “Tinha uma pedra no meio do caminho”. O que restou do escrevente? Um verso. Prefiro ver Bartleby como um poeta que não cabia num escritório, como tantos que se refugiam atrás das pilastras e dos bimbos, ou dentro dos escaninhos e das gavetas. Prefiro ver Bartleby como um poeta liquidado por um modo de produção que exclui e elimina a poesia. Prefiro ver Bartleby como mais um trabalhador vitimado pelo trabalho. Desconfio que um funcionário de repartição tenha mais chances de entender Bartleby do que um filósofo consagrado. Dirão que minha leitura não é razoável, que vai de encontro à fortuna crítica do conto. Direi, com Bartleby, que, neste ponto, prefiro não ser minimamente razoável!


NOTAS

1 Deleuze, G. Bartleby, ou a fórmula. In: Deleuze, G. CRÍTICA E CLÍNICA. 2 ed. São Paulo: Editora 34, 2013. p. 91 - 117.

2 Agamben, G. BARTLEBY, ESCRITA DA POTENCIA. Editora Assírio & Alvim: Lisboa, 2007

3 Žižek, S. O ANO EM QUE SONHAMOS PERIGOSAMENTE. Boitempo: São Paulo, 2011.

4 Estrada, A. C. T. BARTLEBY O LA POLITICA DEL CAOS. Disponível em: http://www.redalyc.org/pdf/4138/413835218006.pdf  Acesso em: 23 de abr. 2019.

5 Vila-Matas, E. BARTLEBY E COMPANHIA. Trad. Maria Carolina de Araújo e Josely Vianna Baptista. Cosac Naify: São Paulo, 2004.

6 Melville, H. BARTLEBY, O ESCREVENTE. Trad. Bruno Gambarotto. Grua livros: São Paulo, 2014. A maioria das citações do conto é desta edição, quando forem de outras edições estará indicado.

7 Camus, A. CALIGULA. Disponível em: http://ekladata.com/VitBKW8efH33B054AZ9riu_QktA/Camus-Albert-Caligula.pdf Acesso em: 18 de abr. 2019.

8 Bento, A. I WOULD PREFER NOT TO - BARTLEBY, A FÓRMULA E A PALAVRA DE ORDEM. Disponível em: http://www.bocc.uff.br/pag/bento-antonio-bartleby.pdf  Acesso em: 18de abr. 2019

9 Esta é uma das poucas descrições de Bartleby, e as traduções variam. Exemplo. Bruno Gambarotto (Grua Livros): “Ainda posso ver-lhe as feições – sua fragilidade asseada, sua miséria apresentável, sua ruina insondável! Era Bartleby.” No original está registrado: “I can see that figure now – pallidly neat, pitiably respectable, incurably forlorn! It was Bartleby.” A tradução utilizada está em: Melville, H. BARTLEBY, O ESCRIVÃO: UMA HISTÓRIA DE WALL STREET E OUTRAS HISTÓRIAS. Trad. Cássia Zanon. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.

10 Blanc, A.; Bosco, J. DE FRENTE PRO CRIME. Disponível em: https://www.letras.com.br/joao-bosco/de-frente-pro-crime Acesso em: 20 de abr. 2019.

11 Marx, K. O CAPITAL - Livro I - Tomo II. São Paulo: Nova Cultural, 1986.

12 Neto, O. F. A exclusão do Bartleby de Melville e a “inclusão” do doente mental na sociedade. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_abstractHYPERLINK"http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php? Acesso em 24 de abr. 2019

13 Tradutores... Na edição que utilizei principalmente, no parágrafo que coloca o advogado-narrador sob suspeita, há um trecho sublime: "um saboroso acepipe moral para minha consciência". Acepipe moral? O tradutor certamente é poeta, só não sei se é fiel ao texto. Na outra edição está registrado "doce consolo para minha consciência". O original registra "sweet morsel for my conscience."

14 Borges, J. L. BARTLEBY, O ESCRIVÃO, DE HERMAN MELVILLE. Disponível em:  http://www.blogdaeditorarecord.com.br/2017/03/30/bartleby-o-escrivao-de-herman-melville/ Acesso em: 21 de abr. 2019.

15 A frase teria sido dita por Kafka a Max Brod: "Há muita esperança, só não para nós." Kafka, F. NAS GALERIAS. Trad. Flávio Kothe. Estação Liberdade: São Paulo.

16 Kafka, F. UM ARTISTA DA FOME & A CONSTRUÇÃO. Trad. Modesto Carone. Companhia das Letras: São Paulo, 1998.

17 Žižek, S. EM DEFESA DAS CAUSAS PERDIDAS. Boitempo: São Paulo, 2011.

18 Kundera, M. A IMORTALIDADE. Trad. Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca e Anna Lucia Moojen de Andrada. Nova Fonteira: Rio de Janeiro, 1990.

19 Hardt e Negri tratam o caso Bartleby de forma mais razoável. Enxergam a recusa do escrevente como início de uma política libertadora, mas vazia se limitada a si mesma: "a recusa em si (do trabalho, da autoridade e da servidão voluntária) leva apenas a uma espécie de suicídio social." Hardt, M.; Negri, A. IMPÉRIO. Record: Rio de Janeiro, 2001.  

(Texto publicado originalmente no Passa Palavra)