CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE: A POÉTICA DO ATRITO E DA ANARQUIA
É
interessante escrever colunas periódicas porque as datas de publicação são
conhecidas antecipadamente, o que permite planejar os temas. Hoje é 31 de
outubro de 2022. Eu poderia falar sobre as eleições brasileiras, como todo
mundo, mas havia me organizado para escrever sobre Carlos Drummond de Andrade –
que nasceu em Itabira/MG há exatos 120 anos – e resolvi manter o planejamento.
Colocar
palavras na boca do povo é para poucos. Conheci Drummond pela expressão “E
agora, José?” que as pessoas repetiam quando a coisa apertava. Tempos depois
descobri que a pergunta era na verdade um verso do poeta de Itabira. Dizem, por
lá, que Drummond teria escrito o poema José para o irmão de mesmo nome,
que, apaixonado, invadiu um palacete a cavalo para levar a amada. Mas foi
capturado e surrado pela família dela (Invadir a cavalo um imóvel com
corredores e escadas... Que ideia besta...). O tal palacete foi transformado,
posteriormente, no hotel central de Itabira, hospedar-se por lá é como voltar
um século no tempo. Nas horas mais silenciosas, após o almoço ou no meio da
madrugada, quase se ouvem os fantasmas do passado caminhando pelo piso de
madeira. Drummond realmente teve um irmão chamado José, mas não sei se a
história contada sobre ele é real. Manoel de Barros afirmou que só dez por
cento do que escrevia era mentira, enquanto noventa por cento era inventado. Talvez
o mesmo valha para a história que se conta sobre o irmão de Drummond. Talvez a
invasão ao palacete seja uma invenção coletiva do povo itabirano.
Em
Itabira, chama a atenção o fato de Drummond não ser unanimidade, apesar do
Museu de Território Caminhos Drummondianos, da Casa Museu Carlos Drummond de
Andrade e da réplica da Fazenda do Pontal (desmontada e recriada pela Companhia
Vale do Rio Doce em outro local, após a transformação do terreno original em
depósito de rejeitos). Em Cordisburgo, por exemplo, a adesão é total ao
escritor da cidade, Guimarães Rosa. Em Itabira o mesmo não é verdadeiro. Para
justificar a desconfiança, os itabiranos argumentam que o poeta se referiu à
cidade como sendo apenas uma fotografia na parede. Eu ficava em posição
desconfortável, na defensiva, afirmando que ninguém penduraria na parede algo
que não fosse importante. Respondiam, então, que tanto o poeta não gostava da
cidade que não voltou para lá. Ao que eu contra-argumentava que a Itabira
devastada pela mineração não era a mesma de Drummond, que talvez evitasse
visitas exatamente para se preservar da “derrota incomparável”, antevista
por Tutu Caramujo no poema Itabira. Se Drummond tivesse acompanhado
in loco a destruição provocada pela mineração, talvez não escrevesse os poemas
memorialísticos da série Boitempo. A devastação foi tão forte e tão
rápida que poderia liquidar até memórias.
Minha
impressão é que a desconfiança itabirana em relação a Drummond tem mais a ver
com o que chamo de poética do atrito e da anarquia do que com questões
biográficas. É como se o poeta escrevesse condicionado pela luta que travava
com as palavras, sem controle prévio sobre o resultado final da batalha. Captando
possibilidades à medida que atritava uma palavra na outra. Expressando não
exatamente o que ele próprio queria dizer, mas o que as palavras reunidas falavam,
como se elas ganhassem vida quando agrupadas e posicionadas nos versos. Ocorre
que às vezes o resultado final se choca com as crenças, convicções e esperanças
dos leitores (quem sabe até do próprio poeta): Itabira reduzida a uma
fotografia na parede [1]; Tutu Caramujo anunciando a “derrota incomparável”
numa época de fartura ilusória, ao mesmo tempo que os ingleses compravam as
minas [2]; Jesus sonhando com outra humanidade enquanto os romeiros faziam
pedidos [3]; Deus em crise existencial, se perguntando por que fez o
mundo [4]; as modernas instalações de gás, úteis para o suicídio [5].
Certa
vez, num debate após a exibição de um se seus filmes, o cineasta Júlio Bressane
foi perguntado sobre o significado de uma determinada cena. Respondeu que não
teria filmado se soubesse exatamente o que significava, que filmou porque não
sabia ao certo o significado das imagens. Tenho a impressão de que Drummond
poderia responder de forma parecida quando perguntado sobre seus poemas, mas o
poeta pouco comentava a própria poesia, deixava, como deve ser, que as palavras
e as construções poéticas falassem.
Antes
de prosseguir, vale registrar que Drummond conseguiu um feito interessante. Expôs
seu programa poético não em manifestos, mas em versos: O lutador,
Consideração do poema, Procura da poesia. Neste último o bardo registrou:
“O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.” O complemento é: “Penetra
surdamente no reino das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos.”
Deslocamento interessante. A poesia não está no que se pensa e sente, mas sim
em como expressamos pensamentos e sentimentos. O melhor exemplo é No meio do
caminho. Com palavras e versos repetidos, o poeta imortalizou a pedra no
meio do caminho, transmitiu a chateação que sentia e muito mais [6].
A
poesia pode nascer de acontecimentos, fatos e imagens. Mas a força dos poemas está
nas palavras e construções, que, se não forem apropriadas, deixam os versos
burocráticos, cartoriais e flácidos. O poeta – com palavras e outros recursos –
fecunda acontecimentos, fatos e imagens, como uma pedra no meio do caminho ou uma
flor nascendo no asfalto. A poesia também pode nascer de palavras colhidas no
reino das palavras. Tempo, fogo, ferro ou qualquer outra (as mais espessas, as
minerais são preferíveis, diria João Cabral de Melo Neto). Grávido de palavras,
o poeta dá à luz, ou à escuridão, que o importante é colocar poesia no meio do
caminho. Exemplo. Drummond apanha a palavra flor, que é portadora de forte
carga simbólica. Esfrega (atrita) flor em palavras que são suas antíteses:
concreto, asfalto, polícia e tráfego. Trabalha como um artesão, um jardineiro,
modela palavras como se fossem vasos, ou plantas no vaso. O manuseio vai
revelando sentidos ocultos que existem como possibilidade e inquietação:
antieuclidianamente – para falar a la Drummond. O resultado final é
imprevisível. Poesia é quando as palavras oferecem a outra face, que “cada uma
tem mil faces secretas sobre a face neutra” [7]. Com Drummond,
uma flor nasce na rua e ilude a polícia. É feia, antiparnasiana, mas é uma flor
e rompe o asfalto. O belo não está na flor, “sua cor não se percebe, suas
pétalas não se abrem” [8]. Como queria Mário de Andrade [9],
a beleza está na deformação do real: na flor furando o asfalto. Efeito
produzido pelo atrito das palavras posicionadas e reposicionadas, como o fogo
que nasce de gravetos atritados. O poeta esfrega (atrita) a flor no asfalto,
até rompê-lo. O poema é anárquico e sem governo: uma explosão de possibilidades
e inquietações. A poesia drummondiana é imprevisível, sem esperanças e sem opção.
“Lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto lutamos mal rompe a manhã” [10].
Postas
no papel e atritadas as palavras percorrem veredas improváveis, sem governo. O
sentido do poema não está colocado com antecedência e às vezes ultrapassa o poeta.
Se não fosse assim seria inútil. Se poesia é quando as palavras oferecem a
outra face, é também quando o resultado final surpreende o próprio autor. Daí a
imprevisibilidade. O sentido do poema não está colocado definitivamente, porque
o tempo e a vida são a matéria do poeta, e as palavras “rolam num rio difícil e
se transformam em desprezo” [11]. Tinha uma pedra no meio do caminho era
uma coisa em 1928, quando o verso foi publicado e ainda não existia a Companhia
Vale do Rio Doce. Tinha uma pedra no meio do caminho pode ser lido de outra
forma tempos depois, com a destruição provocada pela Companhia Vale do Rio
Doce: nem o Pico do Cauê – a pedra que brilhava e que deu nome a Itabira –
sobreviveu à mineração.
A
poética drummondiana é anarquia e atrito, percorre veredas improváveis e
imprevistas, sem governo. Causou, como não poderia deixar de ser, desconfiança
e contrariedade. Itabira transformada em fotografia na parede (na reclamação
dos itabiranos). A pedra no meio do caminho que enfureceu a crítica (o poeta chegou
a recolher, guardar e publicar comentários depreciativos que recebeu no livro Uma
pedra no meio do caminho – biografia de um poema). Por outro lado e ao mesmo tempo, a poesia
drummondiana é um capítulo sublime da literatura produzida no Brasil.
Notas
[1]
Confidência
do itabirano.
[2]
Itabira.
[3]
Romaria.
[4]
Tristeza
no céu.
[5]
Edifício
esplendor.
[7]
A
procura da poesia.
[8]
A
flor e a náusea.
[9]
Prefácio
interessantíssimo.
[10]
O
lutador.
[11] A procura da poesia.
Publicado originalmente no Passa Palavra.
AQUELAS HORAS EM BAGÉ
De Bagé eu conhecia o analista, o
truculento e hilário personagem que cura crises existenciais com joelhaços e
pescoções [1]. Mas o próprio autor, Luis Fernando Veríssimo esclarece,
logo no início, que “certas cidades não conseguem se livrar da reputação
injusta que, por alguma razão adquiriram. Algumas das pessoas mais sensíveis e
menos grossas que eu conheço vêm de Bagé”. Certeiro. Passei alguns dias na
cidade e conheci a delicadeza das pessoas e, também, da poesia de Giana
Guterres [2].
Gosto de flertar com livros. Ir a
sebos e livrarias como quem vai a uma festa. Trocar olhares. Espiar. Me
aproximar aos poucos. Deixar acontecer (geralmente acontece). Aconteceu numa
livraria no centro de Bagé, numa prateleira com autores locais e obras sobre a
cidade. Costumo correr os olhos pelos livros. Uma boa capa, uma edição
interessante, um título chamativo atraem para a contracapa, depois para as
orelhas... O livro de Giana Guterres não tem orelhas, mas vem com um singelo
marcador de página que exibe um desenho e um poema cartão de visita:
eu, passarinho
tu, revoada
nós ninho.
O título do livro da poeta Giana
Guterres é justamente Eu, passarinho [3]. Os desenhos, como os do
marcador de página, são da ilustradora Carina Flores [4]. Trata-se de
obra viabilizada por meio de financiamento coletivo. É pura delicadeza o
conjunto formado pelos versos, pelas ilustrações e pelos espaços em branco.
Era uma segunda-feira gelada.
Sensação térmica de -2º graus pela manhã, 10º graus à tarde. Eu já estava na
cidade há uma semana. Já conhecia algumas pessoas. As conversas me deixavam com
a sensação de que o Brasil vale pelos brasileiros, apesar da extrema direita,
que ainda não conseguiu destruir totalmente a cordialidade popular. Eu já havia
provado arroz carreteiro, feijão preto e pudim de leite em mais de uma mesa. Já
havia caminhado sem destino, que é a melhor maneira de conhecer uma cidade
(Certo dia, passando por baixo de uma linha férrea desativada, parei para
observar, um senhor se aproximou, puxou conversa e contou a história da antiga
linha Bagé – Rio Grande. Conversamos sobre trens e cidades, uma prosa sem
pressa, sem medo e sem desconfiança, a tal cordialidade que a extrema direita
não conseguiu destruir totalmente, por enquanto). Eu já havia passado na livraria e adquirido Eu,
passarinho. Como estava livre naquela segunda-feira gelada, caminhei para o
centro da cidade com o livro debaixo do braço.
Iniciei a leitura na mesa de uma
lanchonete, na calçada, apesar do frio. Estava na Rua Pelotas, que é uma
travessa cheia de sombras e percorrida, sobretudo, por ventos e pombos. Um bom
lugar para ler poesia. Logo no primeiro poema, Giana delimita as coisas com
dois versos:
ligar-se à terra é
alçar voos para
dentro, enquanto se
alcança as nuvens.
O segundo poema é forte:
pai, por aqui
eu tento retomar a
rotina
sem saber como é
agora
uma rotina sem você
sem tua voz
me perguntando
se tudo está bem
se o tempo está bom
e sem eu te
perguntando
qualquer coisa
só para te ouvir
um pouco mais.
pai, por aqui
o céu está azul
tem sol
e os passarinhos
cantam.
Li. Reli. Respirei. Olhei em
volta. Percorri a rua estreita com olhos, de ponta a ponta. Espiei as sombras
estacionadas e os pombos em movimento. Escutei os sons da cidade. Toquei o
vento. Pisei firme. Pensei na vida. Percebi que não estava diante de mais um
livro de versos insossos, como tantos que há por aí. Tive certeza de que leria
os poemas sem parar, e assim foi.
Conclui a leitura do livro na
Praça Silveira Martins, onde estava estacionada uma BiblioVan. O responsável
disse que iria, posteriormente, ao Uruguai compartilhar livros e histórias.
Pensei em Eduardo Galeano. Pensei na pequeneza das cidades turísticas (havia passado
por algumas), que têm muitas lojas, mas poucas histórias e livrarias sem graça.
Pensei na grandeza de Bagé, que tem muitas histórias e livrarias simpáticas.
Falei sobre Eu, passarinho, que havia terminado de ler num banco da
praça. Elogiei bastante. Disse que tinha dúvida apenas em relação ao título,
que vinculava Giana Guterres a Mario Quintana, sendo que a poesia dela tem asas
e vida própria. Talvez se fosse Eu, passarinha ajudasse a demarcar
limites, ou não, além de ser muito modernoso, é preciso evitar vinculações?
Enfim. O interlocutor respondeu que precisaria ler o livro para opinar. Depois
contou histórias do lugar, dos livros que escreveu e das viagens na BiblioVan
(novamente pensei na cordialidade que a extrema direita não conseguiu destruir
totalmente, por enquanto). Imagino aquele homem percorrendo o Pampa, como se
fosse um passarinho compartilhando livros e histórias. Que caminhos terá
percorrido? Onde estará?
Giana Guterres inicia o penúltimo
poema alertando para que não se acredite em poetas que não falam de suas
cidades. Ela não cita nem Bagé (o poeta é um fingidor) nem outras cidades
nominalmente (e não precisa), basta dizer, como ela diz, que:
as ruas da minha
cidade têm a medida
certa para abrigar
tudo isso que trago
no peito
Mario Quintana é o autor
do famoso verso “Eles passarão... Eu passarinho!”. O poeta gaúcho registrou,
também, que os livros de poesia devem deixar espaços em branco para as crianças
preencherem com desenhos. Não sou criança há tempos e não sei desenhar,
infelizmente, mas tive vontade de preencher os espaços em branco do livro de
Giana Guterres com cenas e cores de Bagé, como “verde-pampa” e os passarinhos,
citados por ela. Como não consegui desenhar e colorir, escrevi essas linhas.
São os passarinhos e o Pampa – a
leveza, a imensidão, o vazio, a delicadeza – que encantam nos poemas de Giana
Guterres, especialmente para quem vive emparedado por edifícios. A poeta
sobrevoa a planície em zigue-zague, dançando, como uma andorinha, no ritmo do
vento:
o pampa é uma
paisagem
na janela
que me convida
a pôr os pés na
grama
na terra crua
sob meus pés
como uma parte de
mim.
Percorrendo as estradas da região,
o Pampa, pela janela, repetidas vezes me convidou a parar o carro e fotografar,
apenas para constatar, em seguida, que a imensidão e o verde não cabem nos
registros fotográficos.
Reli as histórias do analista de
Bagé antes de visitar a cidade. Mas a Bagé que conheci – pelas pessoas e pela
poesia de Giana Guterres – é leve e delicada, não tem a ver com o personagem de
Luis Fernando Veríssimo. Num dos poemas a poeta pergunta: “Você já parou para
pensar no que te faz sentir vivo?” O analista de Bagé provavelmente responderia
com uma cara feia, no mínimo. Já eu diria que me sinto vivo graças a coisas
como aquelas horas em Bagé – o arroz carreteiro, o feijão preto e o pudim de
leite; desenhar e colorir os espaços em branco de um livro de poesia (se eu
soubesse); bater-papo sem pressa , sem medo e sem desconfiança embaixo de uma
linha férrea desativada; parar o carro na estrada vazia e fotografar apenas
para perceber, repetidas vezes, que a paisagem não cabe na foto; contemplar as
cores e a imensidão do Pampa; caminhar sem rumo por ruas desconhecidas (mas com
a medida certa para abrigar o que trago no peito, como no verso); ler os poemas
de Giana Guterres numa segunda-feira gelada, no centro de Bagé.
Notas
[1] Luis Fernando
Veríssimo. O analista de Bagé. Porto Alegre: L & PM Editores, 1982.
[2] Giana Guterres publica
poesias e textos na internet, ver @floresciversos.
[3] Giana Guterres. Eu,
passarinho. Bagé: Edição da autora, 2021.
[4] Para conhecer um pouco do trabalho de Carina Flores, ver Arte com Afeto | Criativo Curioso
Publicado originalmente no Passa Palavra
O TRISTE NISSO TUDO É TUDO ISSO
O
compositor capixaba Sérgio Sampaio (1947 – 1994) ficou famoso com a
marcha-rancho Eu quero é botar meu bloco na rua, lançada no Festival
Internacional da Canção, em 1972, no auge da ditadura empresarial-militar
brasileira. O Bloco imortalizou o compositor e é cantada até hoje.
Captou e expressa o desejo de libertação entalado nas gargantas. Mas Sérgio
Sampaio deixou uma obra atual que vai além do Bloco. Foi o que comecei a
perceber ao ouvir o verso “o triste nisso tudo é tudo isso”, numa canção que
tem o sugestivo nome Roda Morta [1]. Depois fui percorrendo o
trabalho do compositor capixaba e foi como se ele estivesse vivo e falando do
tempo presente.
O
poeta Roberto Piva dizia não acreditar em poetas experimentais que não tivessem
vidas experimentais [2]. Sérgio Sampaio foi um poeta experimental com
uma vida experimental. Transitou entre a vanguarda e a tradição, passando pelo
rock. Gravou apenas três discos. Não era impopular, foi impopularizado pela
indústria fonográfica – disse o também poeta e compositor Sérgio Natureza [3].
Mas, como registrou na canção Sinceramente, no álbum de mesmo
nome, gravado em 1982 (o último do compositor capixaba): “Não há nada mais
bonito do que ser independente”.
Em
1971, com Raul Seixas, Edy Star e Miriam Batucada, Sérgio Sampaio lançou o
mítico disco Sociedade da Grão-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10.
A primeira canção é Êta vida, fala das maravilhas do Rio de Janeiro
para arrematar com: “mas não era o que eu queria, o que eu queria mesmo era me
mandar”. A canção Quero ir se encerra com o mesmo sentimento: “O sol
daqui é pouco. O ar é quase nada. A rua não tem fim. Eu volto prá Bahia. Ou
para Cachoeiro de Itapemirim.” No mesmo disco há uma canção, também de Sérgio e
Raul, que é uma espécie de prenúncio de Eu quero é botar meu bloco meu na
rua, chama-se Vou botar pra ferver: “Eu vou botar pra ferver, no
carnaval que passou.”
Sérgio
Sampaio era tido como maldito e difícil. O músico e produtor Roberto Menescal
relatou uma situação estranha que acontecia com compositor capixaba [4].
Toda vez que ele ia ao rádio ou à TV, as vendas de seus discos diminuíam, o que
teria a ver, segundo Menescal, com o astral pesado do artista. A questão é que
o peso está na própria música de Sérgio Sampaio. É justamente o pessimismo,
entendido como uma espécie de antiautoajuda, que garante a atualidade das
canções do compositor capixaba. Exemplo. Viajei de trem: “Um aeroplano
pousou em Marte, mas eu só queria ficar à parte”.
Um
amigo petista dizia, em 2018, um pouco por pirraça e um pouco por desespero,
que Geraldo Alckmin era mais perigoso que Jair Bolsonaro. Não sei se ele mantém
a opinião depois de quatro anos de desgoverno do segundo. Nunca perguntei,
seria indelicado. Seja como for, a “opção” que se oferece atualmente é Lula –
com Alckmin comendo pelas beiradas da vice presidência – para derrotar
Bolsonaro. É escolher entre o ruim e o pior ainda. Isso sem contar os
bolsonaristas armados que não serão vencidos nas urnas nem convencidos pela política
de conciliação de classes. A obra de Sérgio Sampaio parece ter sido composta
nestes e para estes tempos estreitos, limitados e perigosos. Exemplos. Pavio
do destino: “o bandido e o mocinho, são os dois do mesmo ninho”. Hoje não: “Hoje não tem nada disso, de
ser feliz por aí, hoje eu não quero comício aqui”. Meu amigo petista votará em
Lula – apesar do Alckmin – para derrotar Bolsonaro. Eu, pelo meu lado, um pouco
por pirraça e um pouco por vingança, sugeri, sem explicar o porquê, que meu
amigo ouvisse Sérgio Sampaio.
O
compositor capixaba captou o peso, a aflição, o pessimismo e, sobretudo, a
desconfiança generalizada, como em Filme de terror: “Dura um ano
inteiro, o filme de terror [...] Quem ousar sair de casa, passe a tranca e
feche o trinco [...] Abra os olhos com os vizinhos”. A diferença é que o filme
de terror chamado Brasil dura séculos. Mesmo o Bloco é uma canção
pessimista, apesar de ter expressado o desejo de libertação entalado nas
gargantas. O próprio Sérgio Sampaio considerava o Bloco triste. Certa
vez disse ao poeta Waly Salomão que não entendia por que uma canção tão triste
fazia sucesso no carnaval. Ao que o poeta respondeu com uma pergunta: “quem te disse
que o Carnaval é alegre?” [5]
Era
1997. Três anos depois da morte de Sérgio Sampaio. O escritor e compositor João
Moraes soube, por uma matéria de jornal, que se ninguém retirasse os restos mortais,
Sérgio Sampaio iria para uma vala comum [6]. João Moraes era secretario
de cultura em Cachoeiro do Itapemirim, cidade natal de Sérgio, de quem era
primo e divulgador. Ele conversou com o prefeito e organizou o translado. Buscou os ossos no
Rio de Janeiro e os levou para o Espírito Santo. Mas o prefeito resolveu
esperar o lançamento do disco Balaio do Sampaio para fazer o enterro [7]. Para não
deixar os ossos numa funerária, João Moraes guardou-os em casa. Se passaram treze
meses até que os restos mortais fossem finalmente enterrados em Cachoeiro do
Itapemirim. João Moraes conta que chegou a ir a bares, ainda no Rio de Janeiro,
com o esquife em que estavam os ossos de Sérgio Sampaio. Já em Cachoeiro,
costumava fazer saraus e colocava a caixa com os restos mortais do compositor
em cima da mesa, mas apenas quando a música estava boa. Chegaram a apelidar os
ossos, carinhosamente, de “sérgios mortais”.
Poderia
concluir dizendo que Sérgio Sampaio foi um poeta experimental com uma obra, uma
vida e uma morte experimentais – os ossos passeando por bares e frequentando
saraus. Mas arrisco mais algumas palavras, porque me ocorreu um paralelo
inusitado ao ouvir Sérgio Sampaio e lembrar do meu amigo petista que achava
Alckmin mais perigoso que Bolsonaro, pelo menos até o ex-tucano virar vice do
Lula. Os restos mortais do compositor capixaba vagando antes do enterro
definitivo me fizeram pensar na esquerda brasileira, como se ela fosse um punhado
de ossos dentro um esquife levado para bares e saraus.
Notas
[1]
A
canção Roda Morta é uma composição de Sérgio Sampaio com o poeta
Sérgio Natureza.
[2]
Roberto Piva:
assombração urbana.
[3]
O
depoimento de Sérgio Natureza está em Sérgio Sampaio –
Tem que acontecer
[4]
Rodrigo
Moreira. Eu quero é botar meu bloco na rua! 2. ed. Niterói: Muiraquitã, 2003. p.
93.
[5]
O
diálogo entre Waly Salomão e Sérgio Sampaio está na biografia citada na
nota anterior, p. 78.
[6]
O
depoimento de João Moraes está em Sérgio Sampaio –
Tem que acontecer.
[7] Balaio do Sampaio
é um tributo ao compositor capixaba, contou com a participação de Chico César,
João Bosco, Zeca Baleiro, Lenine, João Nogueira, Jards Macalé, Luiz Melodia e
outros.
Publicado
originalmente no Passa Palavra
ISMÁLIAS
Há
livros que conquistam pelo título, à primeira vista. Às vezes o encanto se
perde com a leitura, como se o título tivesse sido um golpe de sorte. Às vezes
o encanto cresce com a leitura, como se o título fosse inseparável do texto. É
o caso do romance O resto é silêncio,
de Erico Verissimo [1], apesar do
autor achar que faltou “carga emocional” na história. Logo no início do
prefácio o romancista informa que, num anoitecer de outono de 1941, conversava
com um amigo na Praça Senador Florêncio, no centro de Porto Alegre, quando viu
precipitar-se de um edifício uma coisa com forma humana. Correu em direção ao
objeto caído e encontrou morta uma rapariga
loura, alva e franzina [2]. Suicídio? Provavelmente. Mas o texto
não permite que se chegue a conclusões definitivas. No romance o corpo é de
Joana Karewska. Não sei se era o nome verdadeiro da mulher que morreu naquele
anoitecer de outono. Mas o fato é que, a partir da morte dela, o romancista
criou aproximadamente duas dezenas de personagens e os entrelaçou no espaço
(Porto Alegre) e no tempo (uma sexta-feira da paixão e um sábado de aleluia).
Para visualizar a ação e o cenário, Erico Verissimo chegava a construir
maquetes enquanto escrevia romances. Não sei se o romancista construiu uma
maquete quando escreveu O resto é
silêncio. Mas a sensação é de que ele observava a cidade e os personagens
por cima e ao mesmo tempo, como se fosse um deus no céu de Porto Alegre, que é
o mais belo do mundo [3].
Queria
subir ao céu. Queria descer ao mar. Banhou-se no luar. Subiu
na torre, pôs-se a cantar. Subiu na torre, pôs-se a sonhar. Enlouqueceu?
Fugiu com um anjo? Pulou na água? Numa cidade distante do litoral, o poeta
Alphonsus Guimarães imagina Ismália na torre, entre o céu e o mar. Seria ela a
musa dele? A prima que morreu jovem? Seja como for, também vejo Ismália no topo
da torre: dançando entre a lua do céu e a lua do mar.
Queriam
amar no céu. Queriam amar no mar. O amor era sub-reptício e clandestino,
ilícito e perigoso, proibido e urgente, vedado e ardente. Naquela cidade
distante do mar, o amor urgia: as bocas salgadas pela maresia.
Naquela cidade sem luar, o amor era impreterível: levantavam as saias e se
enluaravam de felicidade. Uma andava tonta, grávida de lua, e outra andava nua,
ávida de mar. Mas ouviam risadas. Foram ficando marcadas. Resolveram
fugir pelo rio. Foram correnteza abaixo. Rolando no leito. Engolindo água.
Boiando com as algas. Arrastando folhas. Carregando flores. Se desmanchando.
Foram virando peixes, virando conchas, virando seixos, virando areia, prateada
areia, com lua cheia e à beira-mar.
Chico
Buarque teria composto a canção Mar e Lua, citada acima, a partir de uma crônica de jornal que narra
o suicídio de duas amantes, no interior do país. Qual crônica? Baseada em fatos
reais? Teriam se lançado nas águas porque o amor lhes era proibido? Quem eram?
Onde foi? Não encontrei. Além da crônica, teria o compositor se referido também
ao poema de Alphonsus Guimarães [4]?
Ou, questão paralela, será que Ismália amava outra mulher, como na canção? Será
que o poeta Alphonsus Guimarães amava Ismália, que amava outra mulher? Mais ou
menos como no poema Quadrilha, de
Drummond?
Na
canção Paratodos, Chico Buarque diz
ter visto moças feito passarinho, avoando
de edifícios. Quando ouço o verso lembro de Joana Karewska, mas também de
Ismália e das amantes da canção Mar e Lua.
Alguém pode pensar nelas como ingênuas que morreram por amor [5], mas é mais que isso. O poeta Souzalopes
registrou que os suicidas não morrem de
amor pela morte, eles buscam a v-ida ao contrário. É o que chama a atenção
em Joana Karewska, em Ismália e nas amantes da canção Mar e Lua. Elas buscaram a
v-ida ao contrário: o resto é
silêncio.
Notas
[1] O
resto é silêncio (the rest is silence) é também a última frase de Hamlet na
tragédia de Shakespeare.
[2] Optei por
substituir as aspas por itálico para deixar o texto mais leve, sempre
identificando de quem são as palavras.
[3]
No romance O resto é silêncio, é o
desembargador aposentado Ximeno Lustosa quem acha o céu de Porto Alegre o mais
belo do mundo. O céu de Porto Alegre também encantou homens como o poeta Mario
Quintana.
[4] No
poema de Alphonsus Guimarães, Ismália queria a lua do céu, queria a lua do mar. Quanto às amantes da
canção do Chico, uma andava tonta,
grávida de lua, e outra andava nua, ávida de mar. Ismália banhou-se toda em luar. As amantes se enluaravam de felicidade. O corpo de
Ismália desceu ao mar. Os corpos das
amantes foram virando conchas, virando
seixos, virando areia, prateada areia, com lua cheia e à beira-mar.
[5] No romance O resto é silêncio a maioria dos personagens enxerga Joana Karewska como uma ingênua que morreu por amor.
Publicado originalmente no Passa Palavra
