O TRADUTOR
Queria
ser romancista, tornou-se tradutor. Queria conhecer o mundo, foi para uma
cidadezinha do interior.
Aceitou
a ideia de que passaria pela vida sem escrever um romance. Morreria sem fazer a
única coisa capaz de justificar a existência: escrever romances – recriar o
mundo e os homens com palavras. Passaria pela vida sem deixar nenhuma marca
digna de nota, sem absolutamente nada de que pudesse se orgulhar. Mas ter que
traduzir textos acadêmicos para sobreviver era constrangedor. Para os amigos –
quando ainda tinha com quem conversar sobre literatura –, dizia que eram
justamente as malditas traduções de textos acadêmicos que lhe travavam as
possibilidades criativas. É mais fácil vencer um concurso de dança vestindo uma
armadura do que escrever um romance tendo que ganhar a vida como tradutor. A
metáfora era do tempo em que ainda nutria pretensões literárias. Afirmava que
um abismo separa um texto acadêmico de um bom romance. Citava o filósofo das
marteladas: quando olhamos para o abismo, o abismo olha para nós. Concluía
dizendo que os artigos que traduzia eram o abismo. Comparem um Machado de Assis
ou um Guimarães Rosa aos textos que vocês traduzem e revisam – costumava dizer a
amigos e companheiros de profissão. Arrematava afirmando ser impossível
escrever algo que preste depois de passar o dia traduzindo academesmices,
ciência salame, encheção de linguiça, mais do mesmo, bobajadas que só servem
para bater metas curriculares. Havia quem discordasse em nome do futuro do
país, do progresso do conhecimento, da ciência e, sobretudo, como forma de dar
sentido ao próprio trabalho. É desagradável pensar que se desperdiça a vida
repetindo tarefas inúteis. Ele provocava lembrando que, pelo menos, não ficaria
vinculado ao que definia como textículos acadêmicos, porque os nomes dos
tradutores não costumam ser publicados.
Aceitou
a ideia de que não conheceria o mundo e sequer sairia do Brasil. Mas passar o
resto da vida numa cidadezinha esquecida no interior do país não era o melhor
destino. Como ficou sem dinheiro no meio da primeira grande viagem que tentou fazer,
precisou trabalhar. Retomou as traduções. Como a internet já havia chegado
naquele fim de mundo, foi trabalhando e ficando. Era mais fácil sobreviver no
interior com cerca de duzentos reais que ganhava por artigo traduzido, nos
grandes centros o custo de vida era proibitivo para o tradutor. A cidadezinha tinha
um quarteirão com casario do século XIX, do tempo da mineração, cercado por
habitações precárias, resultantes do loteamento de antigas propriedades. Alugou
um quarto num sobrado do século XIX e ficou. Dormia ali. Trabalhava ali.
Traduzia ali. Colocou uma mesa e um computador no canto do quarto, ao lado da
janela, por onde espiava a vida passar quando as palavras começavam a se embaralhar
na tela do computador. Fazia as refeições na cozinha que dividia com outros
inquilinos. Fazia as necessidades no banheiro que dividia com outros
inquilinos. Dividia o sobrado com viajantes, prostitutas, traficantes e até
aventureiros que acreditavam ainda haver ouro nos rios e minas da região. Porque morava no velho sobrado com pessoas marginalizadas
e praticamente não saía do quarto, havia quem desconfiasse que o tradutor fosse
um fugitivo.
Ele
não se importava, até se divertia com as suspeitas. O que irritava o tradutor
era a labuta diária. Além do tempo desperdiçado traduzindo para o inglês, além
do travamento literário provocado pela linguagem insossa dos artigos a serem
vertidos, o tradutor se irritava com o contato mínimo que era forçado a manter
com os clientes. Havia revistas científicas que contratavam empresas especializadas
que quarteirizavam o serviço repassando textos a serem vertidos pelo tradutor.
Havia os acadêmicos que demandavam traduções para publicar em revistas
científicas internacionais. O tradutor preferia o autoritarismo mercantil das
primeiras, que simplesmente informavam o tamanho do texto, o valor e o prazo.
As empresas prescindiam do mandar sugerindo dos acadêmicos, que irritavam
profundamente o tradutor. Sugiro que tenha atenção com os termos técnicos.
Sugiro evitar expressões “aportuguesadas”. Sugiro não utilizar softwares de
tradução. Sugiro consultar as instruções do periódico antes de iniciar o
trabalho. Sugiro entregar até a data tal, ou antes se possível. Toda vez que
recebia ordens em forma de sugestão lembrava-se de Bartebly, o escrevente do
conto homônimo, que passou abruptamente da aceitação ao rechaço com um
misterioso “eu preferiria não”. Poderia revisar o contrato x? Eu preferiria não.
Poderia revisar a procuração y? Eu preferiria não. Mas revisar é parte do seu
trabalho, Bartleby – argumentava o patrão, no conto. Ao que o escrevente foi do
futuro do pretérito (eu preferiria não) para o presente do indicativo (eu
prefiro não) seguido por um mutismo intransigente e definitivo. O tradutor
sonhava com o que definia como o dia B – de Bartleby –, quando responderia “eu
preferiria não” às empresas especializadas em tradução e, especialmente, aos
acadêmicos.
O
tradutor ficava puto quando os acadêmicos iniciavam solicitações adicionais com
agradecimentos duvidosos. Agradeço a prontidão e a qualidade do trabalho,
reenvio o artigo para revisão, fizemos correções na introdução, por favor,
verifique e ajuste a versão para o inglês. E assim era obrigado a perder tempo
com tarefas não remuneradas. Toda vez que recebia solicitações adicionais que
começavam com agradecimentos duvidosos, ele lembrava da escritora Dorothy
Parker, que definiu o sentimento de gratidão como “o atributo mais mesquinho e
choramingueiro do mundo”. O tradutor se irritava profundamente com os
agradecimentos forçados e interesseiros. Agradecemos o cuidado e a atenção com
nosso artigo, por favor, poderia informar a previsão de entrega da versão para
o inglês? Agradecemos o esclarecimento sobre o pagamento, é possível conceder
um desconto?
Foi
num dia qualquer, no começo da tarde, mais precisamente. Pela manhã havia concluído
a tradução de um artigo mal escrito e chatíssimo, cheio de frases longas,
clichês e ideias banais. Quando leu o agradecimento pelo retorno imediato no
início do e-mail, já imaginou que teria dores de cabeça. O professor doutor A pedia
desculpas e informava que a versão enviada ao tradutor não havia sido revisada por
um dos coautores, o professor doutor B. Assim sendo, o professor doutor A agradecia
e sugeria que o tradutor revisasse e refizesse o trabalho com a maior brevidade
possível, se atentando especialmente às alterações realizadas pelo professor
doutor B na seção de métodos. Na mesma mensagem, o professor doutor A reuniu o
que mais irritava o tradutor: uma ordem sugerida e um agradecimento duvidoso.
Quis
esmurrar a tela do computador e a cara do professor doutor A, que ele não
conhecia pessoalmente, mas que passou a odiar com todas as forças. Se pudesse,
pelo menos, agradecer e mandar sugerindo que o professor doutor A fosse à merda...
Agradeço o alerta sobre a necessidade de revisar a tradução, especialmente a
seção de métodos: sugiro que vá à merda! O problema era que aquele grupo de
pesquisa sempre demandava versões para o inglês. Podia abrir mão daquelas
traduções? Sobreviveria sem elas?
Contou os trocados que tinha na carteira, desligou o computador, bateu a porta do quarto e foi até o bar da esquina. Tomou uma cerveja aguada como a vida.
Publicado originalmente no Passa Palavra
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