Onze de setembro

Homem torturado em Abu Ghraib
Que o ataque de onze de setembro foi fundamental para estratégia belicista dos EUA, ninguém contesta. Daí a afirmar que os próprios serviços secretos estadunidenses armaram o atentado vai uma distância considerável, mas não impossível de percorrer. Lembremos dos aviões estadunidenses pintados com bandeiras cubanas para legitimar o ataque à Baía dos Porcos em 1961, isso para ficar em apenas um exemplo. Toneladas de vídeos e textos pesam contra a versão oficial sobre o 11/09: não há sinais do avião que teria sido lançado no pentágono, arranha-céus como as torres gêmeas são resistentes ao fogo, a imagem da queda dos edifícios sugere implosões, pessoas que estavam no local disseram ter ouvido explosões (reforçando a versão das implosões), o prédio 7 do WTC caiu sem ser atingido por aviões e por aí vai. Além disso, por que ninguém assumiu oficialmente o ataque? Por que os suicidas não deixaram mensagens? Tudo muito estranho. Mas deixemos para a história a tarefa de varrer debaixo do tapete.

Contra ataques hollywoodianos, respostas hollywoodianas. Dividido o mundo entre heróis e vilões, caberia aos primeiros vencer os segundos em nome da liberdade, da democracia e de bons bocados de petróleo. Bush filho é o pai da petroleocracia pós-moderna.

Dez anos depois, sabemos que a terrível Al-Qaeda não é assim tão poderosa quanto diziam os mocinhos estadunidenses. Claro, era e é preciso supervalorizar o inimigo. Também é sabido que as armas de destruição em massa do Iraque eram peça de ficção de relatórios pré-fabricados. Medo enxertado nos seres. Hemorragia social estancada com torniquetes de medo. Não há situação tão ruim que não posso piorar, essa é a mensagem do estado estadunidense para seus cidadãos. O colorido dos alertas de ataques terroristas estiveram sempre à mão, especialmente para os momentos de queda de popularidade do presidente da vez. Contra o colapso generalizado da sociedade consumista, a cicatrização via estabelecimento de um inimigo externo. É mais fácil justificar o esvaziamento das liberdades individuais quando se está enfrentando um “terrível” inimigo externo. Isso para não falar de Guântanamo, Abul Ghraib e da legitimação da tortura, eufesmiticamente chamada de simulação de afogamento.

Toneladas de enlatados engarrafaram a inteligência da sociedade estadunidense. As comemorações do suposto assassinato de Bin Laden atingiram o cu-me da ignorância xenófoba. A covardia do ato, a invasão deliberada de um país, as informações arrancadas sob tortura não serviram para constranger os paladinos da barbárie, que não hesitaram em comemorar o suposto assassinato.

Todo império decadente carece de mitos e mistificações. O mito da guerra ao terror produziu suas mistificações, como a idéia de que os EUA são vulneráveis. Dez anos depois do 11.09 a tricotomia se impõe: ou os ataques foram facilitados, ou foram forjados, ou houve grande falha dos mecanismos de segurança. Sendo esta última possibilidade a menos provável.

A questão fundamental é que ataques como os do 11.09, por mais espetaculares que possam parecer, não ameaçam a estrutura e o funcionamento do capitalismo estadunidense, que é o que realmente interessa para os burgueses. Os ataques tendem a formar um consenso momentâneo que encobre as contradições capitalistas, reforçando a hegemonia burguesa. O discurso da vulnerabilidade justifica a corrida armamentista, as guerras imperialistas e a limitação da liberdade dos cidadãos. Dez anos depois está tudo mais claro, apesar dos incautos e interesseiros que, por razões distintas, insistem em endossar o coro da vulnerabilidade.

A única ameaça real ao capitalismo estadunidenses são suas contradições internas, como sabem os Obamas e demais gestores do capital. O perigo é a crise de realização do valor e os milhões de estadunidenses varridos para baixo da linha da pobreza, 46,2 milhões para ser preciso. Guerra ao terror e vulnerabilidade externa são apenas maquiagem para esconder as garras da economia imperialista.

Um grito

Edvard Munch: O grito.
Semana passada foi divulgado um vídeo em que policiais de SP xingam dois homens baleados: um está algemado no chão, outro agoniza caído e espuma pela boca. As frases dos policiais são: “Estrebucha, filha da puta, estrebucha, vai...”; “Por que que esse não morreu ainda?”; “Deu sorte, heim meu...!”; “Não morreu o filha da puta?” e “Tomara que você morra no caminho.”


Tirando a imagem, nada de novo. A média mortos pela PM de SP no último ano foi de 1,85 por dia. No período que vai de janeiro de 1998 a setembro de 2009, a polícia do RJ matou 10.261 pessoas, média de 2,4 mortos por dia.

Metendo o dedo na ferida. A questão é: quem chancela a violência policial? O Estado? Sim. Os capitalistas? Sim. Só estes? Não.

O anonimato possibilitado pela Internet é revelador. Até onde meu estômago permitiu, li alguns dos milhares de comentários relacionados ao vídeo. A conclusão é inequívoca. A maioria apóia incondicionalmente a atitude dos policiais.

A questão é: o que fazemos quando temos total poder sobre terceiros? Considerando os comentários peçonhentos, a situação dos baleados seria muito pior se algum dos internéticos fosse PM. Ou seja, a violência policial é socialmente legitimada. Essa é a questão. O policial é somente quem puxa gatilho; quem mata é deus, a família, a propriedade privada e toda a sociedade.

Penso em Quixote. Tripudiar de um inimigo indefeso e agonizante? Onde ficam as leis do bom combate? Fosse contra quem fosse em qualquer situação é uma covardia. A ética não tem duas medidas. Como queria Lukács, Quixote realmente lutava contra dois tempos: contra “a cavalaria medieval” e contra “a baixeza prosaica da sociedade burguesa”.

Como Quixote assistiria um vídeo tão catingoso? O que pensaria dos comentadores sapateando sobre um quase cadáver? Estes responderiam: mas e se fosse a sua família, e se fosse com você, e se, e se...  Rebato: a estupidez mais covarde se esconde atrás da conjunção condicional se!

Roliudeanamente, cérebros bipolares dividem o mundo em dois grupos: cidadãos de bem (comentadores, suas famílias, contribuintes) e ladrões (todos aqueles que ameaçam a paz dos shopping centers, quiçá até este que escreve. Tomara!). A burrice bipolar exclui qualquer coisa que escape da equação cidadãos de bem x ladrões. Classes sociais, cor da pele, consumismo são sumariamente excluídos. E vale tudo, inclusive sapatear sobre o corpo de um homem que agoniza.

A poesia naufraga. Mundo siliconado: cosméticos clareiam dentes, viagras levantam picas, barragens assassinam rios, medicamentos psiquiátricos sustentam os cidadãos de bem. Aurora das mercadorias e dos critérios quantitativos.

Capitalismo é igual a guerras, assassinatos, destruição ambiental, burrice bipolar, calmantes, medicamentos antidepressivos e covardia. Enojado, fico pensando que é o mundo que estrebucha e que morre no caminho. Alegro-me. O capitalismo e suas guerras, sua ignorância, sua destruição do meio ambiente estão liquidando este acaso horroroso chamado humanidade. Evoé!

JC

Notas conjunturais

O tacho capitalista entornou. O caldo pestilento da crise escorre pelo mundo. Do Oriente Médio a Israel, dos EUA à Espanha, e até debaixo da saia da rainha mãe.

Dinheiro não nasce em árvore e nem de semente transgênica. A teoria econômica ainda serve para alguma coisa, apesar dos economistas do establishment. Não era difícil prever o resultado das medidas anticrise de 2008, os estados se endividaram até o nariz para salvar seus capitalistas da bancarrota, três anos depois estão todos se afogando: estados, capitalistas e, principalmente, trabalhadores. Não há grandes novidades na teoria da crise, apesar das palavras pomposas repetidas pelos economistas, como o substantivo feminino recidiva, sinônimo de recaída. Os apologéticos de plantão não resolveram a crise, mas a palavra bonita para definir o segundo momento da tormenta já está na praça: recidiva.

É sabido que os canhões e bombas da segunda guerra mundial foram a solução de continuidade do capitalismo em crise; apesar de Keynes e de sua teoria geral do emprego, do juro e da moeda. Atualmente a burguesia não dispõe de um Keynes, mas resta-lhe sua máquina de guerra. Afeganistão, Iraque e Líbia na mira do fuzil. E virão outros.

Na Líbia os serviços secretos ocidentais armaram dúzias de mercenários, deram-lhes o nome de rebeldes e desfecharam o ataque petroleiro. Depois acusaram o governo líbio de reprimir seu próprio povo. Esperaram semanas. Quando a rebeldia dos seus rebeldes se mostrou insuficiente para garantir o ouro negro, aviões e bombas da otan foram despachados para liquidar a peleja.

Mas a crise é uma serpente traiçoeira, está no quintal e no berço das crianças. A Inglaterra condena a repressão de todos os governos que não lhe agradam, se cala sobre a repressão de todos os governos que lhe agradam e agora se vê obrigada a reprimir em seu próprio solo. Pau que bate em Chico também bate nos súditos da rainha. Virão jatos de água, cassetetes e o exército se necessário.

Desemprego, racismo e desigualdade social são varridos para baixo do tapete. Os rebeldes ingleses foram definidos como vândalos, só. O combate é antes de tudo semântico. Conta pouco o assassinato de um jovem negro pela Scotland Yard, que é a mesma polícia que liquidou um brasileiro inocente com sete balaços na cabeça. Mas a crise dificulta inclusive a manipulação. Na terra da rainha e de Huxley já não dá para omitir uma verdade: a crise chegou. Admirável Mundo Novo. A crise é para inglês ver.

O rei está nu, a rainha, só de calcinha.

JC

Líbia: bombas sedentas de petróleo, cifrões encharcados de sangue


Os ritos processuais da guerra de rapina variam pouco. Interesses econômicos na frente; notícias falsas, soldados e caças no campo de batalha. Afeganistão, Iraque, Haiti. Na Líbia não é diferente. Passados cento e trinta dias do início dos ataques ao país norte africano, a verdade brilha sobre os escombros de Trípoli: imperialistas ocidentais armaram, treinaram e deram o nome de rebeldes aos mercenários de Benghazi.

É isto que explica como os protestos populares em dois dias se transformaram em levante militar, armas e soldados já estavam lá, faltava apenas a oportunidade. Nuri Mesmari, homem de confiança de Kadafi,  já havia sido recrutado pelos franceses, foi ele que negociou a deserção de militares do regime. Um mês depois do início do levante, um homem da CIA, o coronel Khalifa Haftar, chegou dos EUA para comandar os rebeldes.

Quando seus rapazes de Benghazi se mostraram incapazes de derrotar o regime, a OTAN não hesitou, despachou seus caças e bombas para a Líbia. Neste momento em que caças, bombas e mercenários armados se mostram insuficientes para vencer Kadafi, o que farão os imperialistas? Dividirão ou país? Mandarão seus próprios rapazes para combater em solo?

Num contexto de crise capitalista e de explosão das dívidas dos estados imperialistas, não vai ser fácil enviar soldados oficialmente, a presença em terreno líbio deve se restringir às forças especiais. Por outro lado, os protocolos e ritos processuais da OTAN não protegerão os países imperialistas do inevitável desgaste.

Até quando a farsa da guerra humanitária vai se sustentar? Quantos caças e helicópteros cairão por “falhas mecânicas” até que se comece a questionar lorotas desse tipo? Os batalhões midiáticos vão poder sustentar as versões de seus militares por quanto tempo?

Nos últimos dias surgiu um sinal de aprofundamento da farsa da guerra, como aconteceu em outros países, as bombas imperialistas foram despejadas sobre a tv estatal líbia. Os embaixadores da liberdade de expressão da mídia comercial noticiaram como se fosse um fato qualquer. De qualquer forma, está claro que já não basta inundar os meios de comunicação com as versões dos militares da OTAN e seus patrões. Por mais rouca que seja, é preciso calar a única voz do inimigo, como ensinam os manuais da guerra imperialista.

Mas estes manuais e as empresas multinacionais só enxergam cifrões, esqueceram de estimar o tamanho da resistência do povo atacado. Pensaram que mercenários e bombas seriam suficientes para lhes garantir o domínio do petróleo líbio, erraram feio. Vão ter que refazer a conta, precisarão aumentar seus investimentos na guerra para garantir cifrões empapados de petróleo e sangue. 

JC

O anjo exterminador (de Luis Buñel)


Mergulho nos meandros do sonho. O anjo exterminador é uma película pesadelo, uma sucessão de imagens incômodas. Sonho mau. Surrealismo. Super-realismo. Asfixia.

Um jantar para mais ou menos duas dezenas de burgueses, pouco importa o número, pesadelos são imprecisos. Hipocrisia de sempre. E o inusitado. Empregados abandonam o palacete antes do jantar, exceto o mordomo; burgueses jantam e ficam presos. Confinados sem explicação. Sem barreira visível, apenas o bloqueio. Quem está fora não consegue entrar, os de dentro não podem sair. Está montada a equação.


Não interessa o porquê do isolamento. O porquê não cabe no sonho. É fato e ponto. Como num pesadelo em que não se consegue despertar, nem mover um músculo, nem gritar. Agonia surda. Um inseto na metamorfose de Kafka, um homem na canoa na terceira margem do rio de Guimarães.


Cenários desabam. Dissolvem-se as convenções. Burgueses são bichos com ternos, gravatas e vestidos de grife. Fedem como qualquer cadáver. Atacam como animais acuados. Golpe de Buñel na burguesia? Com certeza. Mas a crítica é cáustica. Não ameaça apenas burgueses. Atire a primeira pedra quem quer seja indiferente ao confinamento e ao terror. Atire todas as pedras quem for capaz de colocar a moral antes do pão.


Grandes obras dizem mais do que expressam diretamente. As metáforas são perigosas. A peste, de Albert Camus, é o nazismo e mais. O anjo exterminador, de Luis Buñel, ataca o franquismo e mais.


O anjo exterminador é anto e ontológico, é mais do que um filme político. E são superficiais as análises que não ultrapassam horizontes políticos. É por ser mais do que política que a película pesadelo de Buñel continua atormentando meio século depois de sua produção. O pesadelo é um rio circular, se repete no filme e no dia-a-dia.  

O anjo exterminador. México 1962. 94min. Drama. Diretor: Luis Buñel. Atores: Silvia Pinal, Enrique Rambal, Claudio Brook, José Baviera, Augusto Benedico, Antonio Bravo, Jacqueline Andere, César del Campo, Rosa Elena Durgel, Lucy Gallardo, Enrique García Álvarez, Ofelia Guilmáin, Nadia Haro Oliva, Tito Junco, Xavier Loya, Xavier Masse, Ofelia Montesco

Sem título

Quebra de rotina. Inspeção veicular. Saída do trabalho, mínima libertação, no meio da sexta-feira. Frio com sol, dia luzente, inverno no planalto paulista. Um rosto familiar na fila de espera, mas não o identifico. Aniversário da ex-mulher. Desatam-se os pensamentos. “Vida: conjunto de possibilidades não realizadas: amor desencontrado, sexo que não fiz.” Mas o letreiro do motel me lembra do sexo que fiz ali, há onze anos. Sexta-feira tem aroma de sexo. Legião Urbana no rádio do carro, canção depressiva. Refeição em casa com vinho cabernet sauvignon, pequena dose alcoólica em horário comercial, subversão insignificante, das que o capital tolera. Apartamento por limpar, piso branco malhado pela sujeira, marcas de sapato, vidros engordurados, interruptores manchados. Faxina adiada para o próximo semestre, pouco importa. Louça da semana, pouco importa. Descanso na sacada. Último gole. Último suspiro de liberdade. Retorno para a repartição. Crachá no peito. Sorriso implantado no rosto. Tédio vespertino. Homem etiquetado. Me calo. E escrevo.  

JC

A poética da luta com palavras em Carlos Drummond


Falemos de poética, ou arte de fazer versos, e falemos de quem versejou como poucos, se é que algum poeta foi tão intenso e visceral. Falemos do mineiro de Itabira, falemos de Carlos Drummond de Andrade.
Abordarei a poética drummondiana presente em três poemas: O lutador, Procura da poesia e Consideração do poema. Chamarei esta concepção de fazer versos de poética da luta com palavras:  

Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
        
Estes três poemas foram publicados, respectivamente, nos livros José (O lutador) e A Rosa do povo (Procura da poesia e Consideração do poema), na fase mais intensa do poeta mineiro. Tão intensa que ele foi capaz de registrar seu programa poético em versos. Era como se ele sentisse sua capacidade de expressar e comunicar todas as suas inquietações e angustias, abria-se para Drummond A máquina do mundo, ou de fazer poemas.
         Carlos Drummond nunca foi apegado à métrica e à rima. Entretanto, após esta fase mais visceral, ele flertou com estas duas deusas da poesia, como para recompor a repelida Máquina do mundo. Isso se deu em seu sexto livro, Claro Enigma, de 1951, que sucedeu os intensos poemas de A Rosa do Povo. Coincidência ou não, o poema A máquina do mundo foi publicado exatamente no livro Claro Enigma, quando a máquina de fazer versos ameaçou se fechar para o poeta. Ele tentou então se voltar para um fazer poético mais clássico e tradicional? É uma possibilidade, mas não é uma solução, e nem o assunto deste texto.Retomemos a poética da luta com palavras.
         Em sua Procura pela poesia, Drummond começa dizendo onde ela não está, citemos alguns versos:

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.

As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesias com o corpo

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

 Não cante tua cidade, deixa-a em paz

 Não recomponhas tua sepultada e merencória infância.

Dito onde a poesia não se encontra, Drummond afirma:

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos. 


Surge uma aparente contradição que ameaça inviabilizar a própria obra de Drummond, que escreveu versos sobre sua infância na série Boitempo, que registrou acontecimentos em A rosa do povo e assim por diante. Nada disso seria poesia? Como resolver o impasse? A auto-ironia seria uma lâmina a dilacerar o próprio poeta? A invalidar sua obra?
Parece-me que não. Ocorre que os poemas drummondianos tratam de acontecimentos, afinidades, aniversários etc.; mas não nascem destes, fluem delas, das palavras, estas corporificam aqueles. Ou seja, os poemas falam de acontecimentos, mas através de palavras que os vão condicionando. A poesia, por sua própria essência, é a arte de manejar as palavras, é justamente o manejo poético das palavras que transforma um relato sobre algo qualquer num poema. Acredito que seja essa a resposta (ou chave) para a procura drummondiana da poesia.
As palavras são a unidade primeira e última da poesia de Carlos Drummond, são sua matéria-prima fundamental, e é curioso que ele as amasse mesmo antes de aprender a ler, o simples aspecto gráfico delas já atraía o garoto Carlos. Do menino que apreciava as palavras para o poeta genial foi um salto.
Mas como funcionam as engrenagens da luta com palavras? Quer o poeta “penetre no reino das palavras”, quer estas brotem dele, e nelas que está a poesia. As inquietações se condensam em palavras, e aqui se encontra a unidade primeira dos poemas de Drummond. Por exemplo: suponhamos que os sentimentos de perda e de falta dominassem o nosso mineiro em algum momento dos anos 1940, estes sentimentos poderiam se fundir no substantivo feminino ausência. E mais que isso, suponhamos que essas inquietações fossem recorrentes, que estivessem presentes sempre. A partir dessa duas palavras pode ter sido construído verso final do poema O Enterrado Vivo: “é sempre no meu sempre a mesma ausência”.  Inclusive, este poema pode ter nascido de trás para frente, torto, porque tudo é possível perante a poesia, diante dela “não há criação nem morte”.  
A luta drummondiana é uma batalha por expressar-se poeticamente através das palavras e pela relação entre estas. Os poemas brotam das palavras, que condensam os sentimentos de seu criador, este pode ser comparado a um catador/reciclador de palavras. Mas a poesia não é um simples somatório de palavras, pela simples razão de que juntas elas ganham vida e são capazes, inclusive, de ultrapassar o próprio poeta, podem expressar mais do que este tinha consciência de dizer. Drummond captou e registrou essa possibilidade nos versos de Consideração do poema:

As palavras não nascem amarradas,
elas saltam, se beijam, se dissolvem,
no céu livre por vezes um desenho,
são puras, largas, autênticas, indevassáveis.

Ou seja, se as palavras “não nascem amarradas” e “se beijam”, é porque elas se procuram, se buscam, se convidam, se tocam, se acariciam. O poema então é uma confraternização de palavras, que, postas no papel, podem trilhar caminhos independentes da intenção original do seu criador. A arte poética consiste no manusear e no atritar as palavras.
Mas aqui surge uma questão. Como compreender os poemas metalinguisticos/metapoéticos de Drummond, mais precisamente os três citados no início deste texto? Teriam eles brotado de palavras ou da intenção deliberada de falar do fazer poético? É provável que esta última hipótese seja a correta, é difícil imaginar que do manejo de palavras aleatórias o poeta tenha atingido um resultado tão concreto, ou seja, a formulação de um programa poético em versos. De qualquer forma, isso não inviabiliza a poética da luta com palavras. É como se Drummond nós dissesse que sua intenção de compor um poema metalinguistico/metapoético não era o mais importante, a questão seria com que palavras escrevê-lo. Neste ponto a poética drummondiana irrompe com toda sua força.
O mais importante não é o que dizer, mas sim como dizer. A poesia está menos nos fatos espetaculares e mais na forma poética de narrar as coisas, ainda que sejam as mais comuns, como uma simples pedra no meio do caminho.
Para Drummond, a essência do fazer poético não consiste em expelir imagens inconscientes, não está na métrica e nem na rima. O poeta, para ele, é um mineirador de palavras que estão “em estado de dicionário”, ou então um artesão que as lapida e as renova. Exemplifiquemos adaptando o trecho final de Morte do leiteiro:

as palavras se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando uma outra coisa
a que chamamos poesia.

Drummond ensina: “Chega mais perto e contempla as palavras. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra.”  Portanto, sua batalha é a eterna tentativa de revelar as faces ocultas das palavras, é por este caminho que se encontram “os poemas que esperam ser escritos.”
         A luta com palavras é a tentativa de encantá-las em busca de um sentido poético possível apenas no verso, é este sentido que Drummond procurou e encontrou repetidas vezes. Mas se isso é verdade, por que “lutar com palavras e a luta mais vã”? Talvez porque “o inútil duelo jamais se resolve”, a luta não tem fim, é quixotesca. O poeta seria um atormentado, um Sísifo condenado carregar palavras montanha acima. Porém, se a luta é vã para o poeta enquanto indivíduo, posto que é eterna e “prossegue nas ruas do sono”, não é inútil, porque nos salva, e nos dá “uma esperança mínima”,  verbaliza e expressa o que sentimos. Exemplifiquemos novamente com o Enterrado Vivo:

É sempre no passado aquele orgasmo,
é sempre no presente aquele duplo,
é sempre no futuro aquele pânico.

         A partir da repetição do advérbio sempre, cria-se uma atmosfera de dor e de ausência eternas, quase sisificas, uma angústia atemporal, onde o orgasmo é passado e o futuro reserva o pânico. A dor é uma constante, é para sempre. Entretanto, se o poema é duro, se não deixa escapatória, ele também estabelece o diálogo na exata medida que todo esse desespero é demasiadamente humano. Neste sentido lutar com palavras não é um esforço vão, é uma luta para estabelecer a comunicação, e aqui há uma rima e uma solução.
         Mas Carlos, e agora? Sua luta com as palavras foi quixotesca, sempre haverá poemas por escrever, assim como havia sempre novos gigantes por combater. Então adaptemos para ti, Carlos, os versos que escreveste para o fidalgo Alonso Quejana, mais conhecido como Dom Quixote de la Mancha:

Dorme, Carlos Drummond.
Pelejaste mais do que a peleja
(e perdeste).
Amaste mais do que amor se deixa amar.
O ímpeto
o relento
a desmesura
fábulas que davam rumo ao sem-rumo
de tua vida levada a tapa
e a coice d'armas,
de que valeu o tudo desse nada?
Vilões discutem e brigam de braço
enquanto dormes.
Neutras estátuas de alimárias velam
a areia escura de teu sono
despido de todo encantamento.
            Dorme, Carlos Drummond, andante
            petrificado
            poeta-desengano.

         Você marcha, Carlos! Carlos, para onde? Respondo: para os nossos corações, “uma rua sai de Itabira e vai dar” nos nossos corações, foste um Quixote com poder de encantar as palavras, um nigromante. Sua poesia é toda encantamento e comunicação. De tua luta com as palavras ficaram os mais belos poemas, neles encontramos nosso desespero, nossa dor, nossa indignação e nossa vontade de amar. Teus poemas são todos nós, são todos nossos.

1) Todos os versos citados são de Carlos Drummond de Andrade.

JC