SÉ

São Paulo não pode parar.
O Metrô não pode parar.
Então o rapaz
(que estava parado)
acelerou o passo
e pulou na frente do trem
(que não parou).

O rapaz nunca mais trabalhou
e muita gente perdeu a hora.




São Paulo - Vista da Serra da Cantareira
COMUNICADO Nº 001/2013

Este blogue, antiode, nasceu em dezembro de 2010. Completou, portanto, dois anos de vida no mês passado. Surgido para divulgar meu livro de poemas, não foi tão útil nesta tarefa; mas, por outro lado, abriu para mim um campo gramado de possibilidades. Publiquei crônicas, textos, poemas...: de minha autoria, de amigos e dos grandes das letras e das artes plásticas.

Publicar textos e poemas “clássicos” é fácil e aumenta o número de visualizações, mas não resolve nada, há dúzias de blogues e sites que já fazem isso. Prefiro publicar materiais próprios e de amigos que considero bons (os escritos e o amigos: totalidade é tudo, é totalidade ou nada), se minhas avaliações são furadas é outra história, mas não é o fim da história. Enfim desta história e deste parágrafo: quando tropeçar em textos e poemas pouco conhecidos dos grandes das letras, publicá-los-ei, mas esta não é a prioridade.

Nestes dois anos e um mês este blogue recebeu quase catorze mil visitas e setenta e quatro comentários para as cento e sessenta e nove publicações. Razoável.

E agora a parte menos desimportante deste comunicado desimportante. Nos últimos tempos este blogue estava sendo atualizado semanalmente, sempre nos finais de semana, geralmente aos sábados. Ocorre que este cavaleiro (também de triste figura), resolveu sair para nova aventura, quer “penetrar no reino das palavras” por outra porta, derrubando a porta se necessário. Aprendi que o poema é desemprenhado na luta com palavras. Não sei como se desemprenha um romance, mas sinto minhas entranhas pejadas de literatura. Aprendi que o romance é um mapa da existência, isso é fascinante e atrai. Neste 2013 quero pelejar e velejar pelos arroios do romance. Pode ser que esteja gestando um futuro natimorto, ou um naufrágio. Se for assim, que assim seja, porque:

Voltar para o pó
não é difícil.

Difícil
é tirar o pó da casa
diariamente.

É isso. Forte abraço. E um 2013 menos pior para todos.

14º Texto


* Nota preliminar: este texto é parte do debate sobre o romance A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera. Os textos anteriores podem ser acessados aqui: Polêmica (A insustentável leveza do ser)

JC..
Quanto ao homem do subsolo, como eu disse em meu último texto, não escapa da roda-viva, assim como ninguém escapa. E não entendi exatamente qual o primeiro capítulo do Gênese de que pode prescindir sem prejuízo do conteúdo...você usou as 3 exemplificações de Kundera do Gênese.
Sobre o Acordo Categórico com o Ser, me parece que você não quer saber muito dos desdobramentos de Kundera sobre o conceito. Novamente: A origem do kitsch é o acordo categórico com o ser. Mas qual é o fundamento do ser? Deus? A humanidade? A luta? O amor? O homem? A mulher? A esse respeito, existem várias opiniões, assim como existem várias espécies de kitsch: o kitsch católico, protestante, judeu, comunista, fascista, democrático, feminista, europeu, americano, nacional, internacional.
 Se você prefere pensar que Kundera se equivocou, ou que há contradição na definição, não sou eu quem bancará o advogado do escritor. Mas no trecho acima Kundera nega explicitamente que o Gênese seja o fundamento do Acordo Categórico com o Ser. Porque, como ele mesmo afirma, a esse respeito existem várias opiniões, cada uma com o seu acordo e com seu kitsch.
Seu tipo de raciocínio conduz a um rigor excessivo (e nocivo como tal) que, para ter coerência, precisaria entender que todas as nominações que Kundera não incluiu em seu exemplo (católico, protestante, judeu, comunista, fascista, democrático, feminista, europeu, americano, nacional, internacional), não estão sob o Acordo Categórico com o Ser, e, portanto, não produzem o kitsch. Todas as religiões africanas, asiáticas, indígenas, o racismo, o xintoísmo e tudo o mais que lembrarmos que Kundera não disse, não produzem o kitsch. Mas esse mesmo rigor, por mais esforço que faça, não conseguirá negar que o autor incluiu em sua definição o marxismo, porque lá está comunista, sem distinções.
Para além disso, o parágrafo inteiro em que Kundera descreve um desfile do 1º de Maio e exemplifica, com essa descrição, o Acordo Categórico com o Ser, não nos autoriza a imaginar que ele tenha excluído o marxismo ou o anarquismo, ou qualquer um que não afirme determinados pressupostos do Gênese, do conceito. Afinal, porque ele o faria? Se esse acordo tem por base o Gênese, tudo o que está fora dele, e não unicamente marxismo e anarquismo, não produzem o kitsch. Se faz algum sentido na obra afirmações categóricas como "a fraternidade entre todos os homens não poderá ter outra base senão o kitsch" e "o kitsch é o ideal estético de todos os políticos, de todos os partidos e de todos os movimentos políticos", como e por que é ainda possível imaginar que Kundera exclua marxismo e anarquismo? Caberia tamanha ingenuidade nesse grande escritor? Prender-se num trecho isolado onde Kundera inicia a explicação do conceito, negando seus desdobramentos, é reduzi-lo e mistificá-lo. Toda a idéia do conceito presente na obra, antes de negar-se, se completam. Por isso é um romance, literatura, ensaio, e não um tratado teórico, crítico e analítico. Extrai-se a ideia acabada do conceito da obra toda, e não de um trecho minúsculo dela. Numa obra analítica, a ausência do rigor do cálculo colabora para uma má compreensão, na obra literária é a presença desse mesmo rigor que atrapalha. Medir o quanto de rigor é necessário ou desnecessário é como tentar exigir o "bom-senso", essa bobagem que não explica e nem resolve nada.
Essa aparente contradição inicial (sim, aparente porque existem outras partes) para mim tem fácil explicação: o que Kundera chama de Acordo Categórico com o Ser é um acordo com o ser enquanto tal, como ele mesmo afirma, e o início da ideia é por ele mostrado com um típico exemplo desse acordo: o Gênese. Esse não é o acordo, é apenas um acordo. Existem vários (várias opiniões, e, portanto, vários tipos de kitsch). Pronto, sem mistificações. É por isso que dá pra dizer que há kitsch na esquerda justamente pela definição de Kundera. Foi ele mesmo quem afirmou o kitsch da esquerda por essa via, e, portanto, se eu acaso estiver correto (de acordo com o autor) em como entendi o conceito, sem mistificações.
Lançar marxismo e anarquismo na definição de Kundera só é mistificação se você estiver certo e o conceito for unicamente aquele isolado no início da ideia, coisa com a qual discordo frontalmente.
“O debate entre os que afirmam que o universo foi criado por Deus e aqueles que pensam que o universo apareceu por si mesmo implica coisas que vão além de nossa compreensão e experiência. Muito mais real é a diferença entre aqueles que contestam a existência tal como foi dada ao homem (pouco importa como e por quem) e aqueles que aderem a ela sem reservas.”
O que eu ressalto nesse parágrafo é justamente a ideia que ele colocou entre parênteses: pouco importa como, por quê e por quem.  Pouco importa como: se por métodos divinos ou pela história; pouco importa por quê: se para o bem ou para o mal; pouco importa por quem: se por Deus ou pelo homem.
Você tem razão o kitsch brota também do aderir sem reservas. Mas como é que o kitsch deixa de brotar ao se aderir com reservas? Para mim, o kitsch nasce da adesão, com ou sem reservas. Essas reservas, se existirem, não poderão nunca por em xeque minha adesão, que, para ser adesão de fato, precisa do kitsch (ou não virá nunca a ser adesão, permanecendo numa condição de ‘nem lá e nem cá’). O kitsch, em Kundera, é esse. Por isso é o ideal estético de todos os homens, de todos os partidos e de todos os movimentos políticos e a condição para a fraternidade.
Acho que foi Nietzsche quem disse que o filósofo prega com o exemplo. E assumo a responsabilidade de dizer que talvez (talvez) tenha sido por isso que ele criou uma filosofia do “viva a vida” ao invés de uma filosofia da morte. Nunca saberemos. E é claro que há o acordo categórico e o kitsch em Nietzsche, de acordo com o que entendi por isso em Kundera. Eu nunca achei que os grandes homens que admiro tivessem conseguido escapar dele. Ou melhor, já achei, um dia. Basta-se estar vivo.
 Acho que no conceito do Acordo Categórico com o Ser, a expressão “categórico” existe porque é, antes de mais nada, um acordo do qual não se pode fugir a priori, muito menos impor-lhe cláusulas. Quando por fim percebemos, já estamos vivos, já estamos kitsch.

 
abraços fraternos...

13º Texto


* Nota preliminar: este texto é parte do debate sobre o romance A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera. Os textos anteriores podem ser acessados aqui: Polêmica (A insustentável leveza do ser)


Tentemos desenrolar o novelo. O pomo da nossa discórdia está num parágrafo que já conhecemos de cor:

“Por trás de todas as crenças européias, sejam religiosas ou políticas, está o primeiro capítulo do Gênese, a ensinar que o mundo foi criado como devia ser, que o ser humano é bom e que, portanto, deve procriar. Chamemos essa crença fundamental de acordo categórico com o ser.”

Kundera pode ter se expressado mal, ou pode ter sido o tradutor, mas está muito claro: por trás de todas as crenças europeias, sejam religiosas ou políticas, está o primeiro capítulo do Gênese. Mas isso não importa muito, ou não importa tanto. Concordo contigo, é o acordo categórico com o ser que explica o primeiro capítulo do Gênese. Mas então, partindo de Kundera, podemos dizer que firma o acordo categórico com o ser quem cumpre duas condições:

1º) Crê que o mundo foi criado como devia ser,

2º) Crê que o homem é bom e deve procriar.

Ou seja, posso retirar o primeiro capítulo do Gênese da equação sem nenhum prejuízo. Não cheguei a afirmar isso, mas se tivesse sido perguntado responderia com tranquilidade: são as duas condições acima que, somadas, estão por trás do Gênese, e não o contrário.

Sabemos que, para o Kundera, o kitsch é o ideal estético do acordo categórico com o ser. Se todas as crenças, religiosas e políticas, firmam o acordo categórico com o ser, todas, sem exceção, são produtoras de kitsch. Aqui o caldo entorna. Não se deve cobrar rigor analítico da literatura, mas esta passa a produzir mistificações, não resta outra possibilidade senão a crítica. Não creio que Kundera despeje marxismo e anarquismo nesse caldeirão (como já registrei diversas vezes), e isso porque seria muito fácil desconstruir o argumento dele. Seria como se ele dissesse:

Por trás do pensamento de Karl Marx está o primeiro capítulo do Gênese, a ensinar que o mundo foi criado como devia ser, que o ser humano é bom e que, portanto, deve procriar. Chamemos essa crença fundamental de acordo categórico com o ser.

Uma formulação como essa é absurda com ou sem o primeiro capítulo do Gênese, como já afirmei, Marx não crê que o mundo tenha sido criado e não crê que o homem seja bom, para o filósofo alemão não há uma natureza humana pré-determinada. O raciocínio vale para Marx e para Lukács, Lenin, Trostki, Bakunin, Brecht, Malatesta etc., etc. É por isso que não dá para dizer que há kitsch na esquerda, pelo menos não através da equação do Kundera. Quem tenta afirmar o kitsch de esquerda via Kundera acaba formulando algo parecido com a sentença absurda que montei no parágrafo anterior. Ou dizendo de outra forma, acaba produzindo mistificações.

Certamente há kitsch na esquerda, deve haver no pensamento de Marx inclusive, mas não é com uma definição limitada como a do Kundera que se vai avançar na compreensão do fenômeno, acho pouco provável que o próprio Kundera lance pensadores do porte de Marx na sua definição. Enfim, a essência da nossa divergência é essa. Considero que lançar marxismo e anarquismo na definição de acordo categórico é o mesmo que amputar um e outro, é mais ou menos como querer passar uma carreta num buraco de rato. Lançar marxismo e anarquismo na definição do Kundera é uma mistificação grande e frágil, desemboca em coisas como a sentença que montei relacionando Marx ao acordo categórico. Diferente seria se partíssemos de outro parágrafo:

“O debate entre os que afirmam que o universo foi criado por Deus e aqueles que pensam que o universo apareceu por si mesmo implica coisas que vão além de nossa compreensão e experiência. Muito mais real é a diferença entre aqueles que contestam a existência tal como foi dada ao homem (pouco importa como e por quem) e aqueles que aderem a ela sem reservas.”

Permita-me um chute. Esse aderir sem reservas é um caminho melhor para entendermos o kitsch, inclusive para além das duas condições que extraí do Kundera. Por exemplo: Marx aderiu (no mínimo com pouca reserva) à ideia de que a revolução estava próxima, e caiu do cavalo. Brecht, no poema Aos que vão nascer, adere sem reservas à crença de que virá um tempo em que o homem será parceiro do homem. É do aderir sem reservas que brota o kitsch, que não precisa ter apenas fundo religioso, como na definição de acordo categórico com ser. O homem do subsolo pode produzir kitsch se aderir incondicionalmente à visão de que a existência é uma merda, ou seja, seu kitsch existirá para mascarar a doçura da leveza, que é parte da vida também, e que ele pode não querer ver. Enfim, penso no kitsch como ideal estético do acordo categórico em geral (não necessariamente do acordo categórico com o ser, qualquer acordo categórico produz kitsch, pode ser com o ser ou outro), ou seja, quem adere sem reservas a seja lá o que for, do subsolo à revolução, vai expulsar para fora das fronteiras do pensamento tudo que lhe contrariar. Pretendo um dia aprofundar melhor isso, mas me parece que este caminho é mais sólido.

Também acho que devem ter ocorrido suicídios filosóficos, o que não houve nem haverá é um filósofo sério do suicídio, porque, se chega nesse ponto, o homem deve providenciar sua autodestruição e não uma nova filosofia.

Lembro que a palavra de ordem “viva a vida” não está muito distante do pensamento de Nietzsche e, se é assim, o filósofo alemão está próximo do acordo categórico com o ser e do kitsch nos termos em que você os entende. Lembremos do trecho em que Zaratustra fala dos que desprezam o corpo:

“Aos que desprezam o corpo quero dar o meu parecer. O que devem fazer não é mudar de preceito, mas simplesmente despedirem−se do seu próprio corpo e, por conseguinte, ficarem mudos.”

Este trecho e outros exemplificam por que não haverá um filósofo sério do suicídio, toda sua filosofia não pode substituir o gesto definitivo.

Registro que a palavra de ordem “viva a vida” não necessariamente precisa ser elaborada a partir do acordo categórico com o ser definido pelo Kundera (duas condições citadas no começo desta mensagem), haverá sim algum tipo de acordo, mas não necessariamente será o mesmo, Nietzsche exemplifica bem isso, seu “viva a vida” não é pronunciado pelo caminho do acordo categórico formulado pelo Kundera.

Por fim, digo que há no pensamento dos vivos (da esquerda ao homem do subsolo) algum tipo de acordo com o ser, porque se não fosse assim eles caminhariam para a autodestruição. Talvez o mais correto seja dizer que, da esquerda ao homem do subsolo, insinua-se um acordo parcial com o ser, porque acordo categórico com o ser só firma quem cumpre as duas condições apontadas acima. Já o kitsch pode mesmo ser entendido como um dado da existência, e pode ser, se meu raciocínio estiver correto, separado do acordo categórico com o ser. O kitsch é um fenômeno que nasce do aderir sem reservas, por exemplo, o kitsch do homem do subsolo pode ser a escuridão.

Forte abraço,
JC

12º Texto


* Nota preliminar: este texto é parte do debate sobre o livro A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera. Os textos anteriores podem ser acessados aqui: Polêmica (A insustentável leveza do ser)

Caro JC..

O Acordo Categórico Com o Ser em Kundera é, como a expressão que lhe corresponde, uma afirmação do ser e, evidentemente, da vida. Isso para mim é mais e bem mais do que claro, se há uma divergência sua quanto a esse detalhe fundamental seria bom se pudesse esclarecer.

Argumentei e citei trechos do livro que considero fundamentar meus argumentos para explicar que o Acordo Categórico é quem está por trás do Gênese, e não o contrário. Essa ideia não é minha, é do próprio Kundera, é assim que penso que os trechos do livro citados por mim esclarecem muito bem. Os princípios do Gênese que Kundera cita servem exatamente para explicar o kitsch que legitima o Acordo Categórico Com o Ser, ou seja, a afirmação do ser e não sua negação. Isso eu penso ter respondido com citações do próprio Kundera, que não termina a explicação do conceito do Acordo Categórico no Gênese, continua a desenvolver a ideia mais adiante e, inclusive, num parágrafo todo onde narra um desfile do 1º de maio e lá distingue o Acordo Categórico Com o Ser, um acordo com o ser enquanto tal, de sua forma, o desfile do primeiro de maio: a palavra de ordem do desfile é “viva a vida”, e não “viva o comunismo”. Como em todo apelo das organizações de esquerda, das igrejas, dos partidos e dos movimentos políticos, à direita e à esquerda, as massas.

Portanto:

Acordo Categórico Com o Ser = acordo com o ser enquanto tal (afirmação fundamental do ser).

Gênese = Kitsch, forma pela qual se afirma o ser, forma atrás da qual escondemos aspectos indesejáveis desse ser. Essa forma tem os seus princípios, ou seja, o homem é bom, o mundo foi criado como deveria ser, etc.

Por isso não discutimos coisas distintas, creio que compreendi seu argumento, que nega que marxistas e anarquistas possam ser enquadrados na definição de Kundera. Ocorre que a definição de Kundera, a meu ver, é essa afirmada acima por mim, e não se trata meramente de uma compreensão arbitrária de minha parte, tanto que exemplifiquei com citações do próprio Kundera. Se você discorda, ok, mas então é necessário me apontar meu equívoco na interpretação, afinal, seu argumento é justamente e exatamente o que neguei em meu último texto. Se você acha que lançar marxismo e anarquismo na definição do Kundera significa falsificar ambos, então você continua achando que o Gênese é o fundamento do Acordo Categórico, quando é exatamente o contrário e é o que penso ter demonstrado a partir do próprio Kundera. É aqui que é preciso desenrolar o novelo. Repetindo para engessar a ideia: Kundera não afirma o Gênese como fundamento do Acordo Categórico, mas faz exatamente o contrário. Para que você sustente que Kundera afirma o Gênese como fundamento é preciso exemplificar.

Sobre o acordo categórico, concordo com você. É por isso que Kundera afirma repetidamente que a fraternidade entre todos os homens não poderá ter outra base senão o kitsch: porque sempre se insinua algum tipo de acordo, porque a vida, perfeita ou imperfeita, é inevitável.  Os homens reunidos em grupos, que partem do princípio de que viver é preciso (absolutamente natural que assim seja), precisam igualmente corrigir a vida para permiti-la, e é desse ofício que brotará o kitsch. Esse acordo, de que viver é preciso, é exatamente o de Kundera, acordo com o ser enquanto tal. Ou seja: enquanto SER.

Acreditar que viver não é preciso não é o mesmo que acreditar que morrer é necessário. Viver não é preciso, mas ninguém, a despeito de poder morrer, a rigor, quando bem quiser, tem escolha. Morrer, antes de ser uma opção, é uma condição. Camus não conheceu nenhum suicídio filosófico, mas eu afirmo, com certa tranquilidade de consciência, que eles aconteceram. Não importa se soubemos ou não. Chegar à conclusão de que viver é uma completa inutilidade dolorosa coloca qualquer um a beira do suicídio, e não há como afirmar que tantos não o fizeram. Mas nosso amigo Souzalopes estava certo...normalmente, em suas amplas razões, os suicidas buscam mesmo uma vida ao contrário.

A partir da definição de Kundera, não há dúvida que entre ele e Camus se insinua algum acordo com o ser. Mas é exatamente a partir daquele definido no romance, um acordo que não tem e nunca teve como fundamento o Gênese.

O menor dos problemas da burrocracia stalinista é o kitsch, seu mal foi muito maior. O kitsch é um dado da existência, está no bem e está no mal, no marxismo, no stalinismo, no anarquismo, no fascismo, na religião, em tudo. Sem mistificações.

O kitsch é a máscara com que se afirma o acordo com o ser. É a máscara que encobre aspectos problemáticos, críticos, a ponto de serem indesejáveis. É somente isso o que vi no belo verso de Brecht: ao receber críticas, ao invés de encará-las ou respondê-las, faz um apelo a sua própria bondade: não é outra coisa senão o profundo acordo categórico com o ser e o kitsch kunderianos.

O trecho do parágrafo que cita sobre a definição do acordo categórico com o ser não passou despercebido por mim, sobretudo quanto diz que “(...) muito mais real é a diferença entre aqueles que contestam a existência tal como foi dada ao homem (pouco importa como e por quem) e aqueles que aderem a ela sem reservas.” Pouco importa como, por que e por quem.

Sobre Nietzsche, está correto que a transvaloração dos valores é o contrário da relativização dos valores. Ocorre que Nietzsche, para chegar até aí, passou pela denúncia da relativização de todos os valores, teve de entender a construção histórica de todos os valores e de toda a moral (especificamente da tradição judaico-cristã). Conforme ele afirmou sobre o que seja a verdade, “um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, parecem a um povo sólidas, canônicas e obrigatórias: verdades são ilusões, das quais se esqueceu que o são." Nietzsche foi o precursor da pós-modernidade quando colocou em questão o valor dos valores. A partir daí, da compreensão dos valores como construção histórica e por isso mesmo relativos, é que afirmará a transvaloração dos valores, a imposição de novos valores, negação da tradição moral judaico-cristã.

Bem, fico por aqui também...

Abraços do camarada
Olavo

11º Texto


* Nota preliminar: este texto é parte do debate sobre o livro A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera. Os textos anteriores podem ser acessados aqui: Polêmica (A insustentável leveza do ser)

Li duas vezes seu Último Samba, mas não elaborei nenhuma resposta e nem retornei nada, por isso envio esta mensagem (mais um retorno do que uma resposta, porque sem grande elaboração). Já escrevi num desses textos que foi útil essa polêmica, o exercício de compreensão do pensamento do outro e de expressão do próprio é interessante. Por exemplo, só agora compreendi (ou acho que compreendi) porque você afirmou, lá no começo, que se insinuava algum tipo de acordo com o ser no pensamento da esquerda, viver é firmar algum tipo de acordo com o ser (pela simples razão de que não nos matamos), nesse sentido se insinua mesmo um acordo, mas não é acordo categórico com ser do Kundera, porque este se requer condições claras:

1º) Por trás dele deve estar o primeiro capítulo do Gênese;

2º) É preciso crer que o mundo foi criado como devia ser;

3º) É preciso crer que o homem é bom.

Então discutimos coisas distintas. Argumento que marxistas e anarquistas não podem ser enquadrados na definição do Kundera, e isso pela simples razão de que não defendem que o mundo tenha sido criado e que exista uma natureza humana. Boa sacada a sua: o capítulo primeiro do Gênese é realmente consequência do acordo categórico com o ser. Mas não era exatamente isso que eu estava discutindo, disse que lançar marxismo e anarquismo na definição do Kundera significa falsificar ambos, nem um nem outro defendem a criação do mundo e a bondade inata do homem.  Por isso que, para mim, dizer que marxismo e anarquismo firmam o acordo categórico com o ser, a partir da definição do Kundera, equivale a falsificar princípios de ambos.

Sobre o acordo categórico com o ser, gostaria de registrar que, do revolucionário ao homem do subsolo, sempre se insinua algum tipo de acordo, ainda que não o definido pelo Kundera. Só não se insinua acordo no caso do suicida incondicional, ou suicídio filosófico, que é como definia o Camus, que também dizia não ter notícia de nenhum suicídio deste tipo.

Os homens reunidos em sovietes, assembleias, partidos e outros mecanismos partem de um princípio: viver é preciso. É também por isso que se reúnem. É legítimo que assim seja: um homem não precisa dos outros para morrer, mas precisa dos outros para viver, e por isso se organiza. O suicida não precisa do aval de terceiros para se matar, e que bom que seja assim. Voltando. Se creio que viver é preciso, realmente se insinua algum acordo, ainda que não seja o do Kundera. Por outro lado, se creio que viver não é preciso, ou melhor dizendo, se creio que a vida é a própria merda, só me resta a autodestruição, viver, neste caso, significa não ter coragem para rasgar um contrato.

Camus não conheceu nenhum suicídio filosófico, não conheceu ninguém que afirmasse ter se matado por achar a vida uma merda (merda no sentido do Kundera). Neste ponto o finado Souzalopes foi genialmente preciso: “Os suicidas buscam a v-ida ao contrário”. Ou seja, há sempre uma condição: uma dívida impagável, um amor perdido etc, etc. O suicida filosófico buscaria a morte de frente (e não a vida ao contrário), porque, ele sim, está em desacordo categórico com o ser.

Vale dizer que Camus escolhe a vida, Kundera idem; então, também no caso deles se insinua algum acordo com o ser, repito: ainda que não exatamente aquele definido no romance. Creio que o pomo da nossa discórdia é exatamente esse, continuo achando mistificação lançar marxismo e anarquismo na definição de acordo categórico com o ser, tenho dificuldade de imaginar que Kundera faça isso, enquadrar a burrocracia estalinista na definição é tranquilo, fazer o mesmo com o marxismo e o anarquismo é mistificar.

Já registrei que pode haver e provavelmente há kitsch na esquerda, mas repito que não é pela via do acordo categórico com ser (na definição do Kundera). Baixei materiais sobre o kitsch, inclusive Apocalípticos e Integrados, do Humberto Eco, quero ler esses textos para depois repensar a questão. Por exemplo: forçando posso até dizer que há algum kitsch no poema do Brecht (Aos que vão nascer), mas não o enxergo onde você o viu, para mim o problema está menos no pedido de complacência do poeta e mais nos últimos versos: “Mas vós, quando chegar a ocasião de ser o homem um parceiro do homem, pensai em nós com simpatia.” A questão é que o tempo do homem ser parceiro do homem pode não chegar, e o poeta parece não relevar essa possibilidade. Então, o suposto kitsch de Brecht não está no seu acordo categórico com o ser, não na definição do Kundera.

Discutimos muito o parágrafo que define o acordo categórico com o ser, mas imediatamente antes está um trecho que passou quase batido: “O debate entre os que afirmam que o universo foi criado por Deus e aqueles que pensam que o universo apareceu por si mesmo implica coisas que vão além da nossa compreensão e aparência. Muito mais real é a diferença entre aqueles que contestam a existência tal como foi dada ao homem (pouco importa como e por quem) e aqueles que aderem a ela sem reservas.” Ou seja, podemos pensar no kitsch como a doença dos que aderem às coisas (não só à vida) sem reservas, por esse caminho dá para tentar enquadrar Brecht no kitsch, já que ele adere, aparentemente sem reservas, à crença num tempo em que o homem será parceiro do homem. Mas repito a sua ressalva: cobrar isso da poesia é complicado. Enfim, pretendo fazer outras leituras para aprofundar melhor.

Aproveito para registrar que não concordo que Nietzsche relativize valores, antes pelo contrário, a transvaloração de todos os valores é o contrário da relativização. Mas se formos seguir por essa vereda sairemos do tema.

A leveza é uma condição da existência, a vida é leve porque não se repete. Como lidamos com isso é uma outra questão, podemos buscar a leveza ou o peso, é por esse duplo caráter que a contradição peso x leveza se torna tão misteriosa e tão ambígua.

Forte abraço,
JC